24 outubro 2015

Youth on Papers - Capítulo 10

Capítulo 10 - Peraltices



   Aquela cidade, que outrora tão pequenina e agora tão promissora, para a qual Joe se mudara à companhia de seu amigo em busca de independência, parecia dar boas-vindas a uma névoa refrescante naquele dia. Forest Heights o tinha agradado até então  embora ele quase tivesse morrido ali —, o ar limpo, as ruas e parques abundantemente arborizados e os prédios e casas de arquitetura clássica e cheia de musgo traziam um clima familiar e aconchegante a seu novo habitante, que sentia como se estivesse de férias em uma cidade nas montanhas.
   O som do saco de papel sendo invadido pela mão de Joe em busca do sanduíche ali armazenado, descontraidamente chamou a atenção de Ned, sentado em silêncio ao lado do amigo no banco de uma praça de frente para o cais mais deteriorado da cidade, que naquela data em especial estava anormalmente movimentado. Os dois colegas de apartamento costumavam tomar café da manhã fora de casa, para não terem que prepará-lo eles mesmos. O copo descartável de papel, no qual Joe tomava seu café, ficara vazio. Ele, então peralta, surpreendeu o amigo com uma brincadeira, deferindo um tapa no fundo do copo quase cheio que ele levava à boca, derramando o café morno no rosto e peito de Ned, que quase saltou do banco com o susto. Enquanto Joe ria desavergonhadamente, Ned se recuperava do atentado, reclamando com aquela voz que parecia calma mesmo entre os xingamentos.

— Que merda, cara! — brigou Ned — Agora troca de camisa comigo, tá mó friaca.
— Ah! Fala sério, aguenta aí. — protestou Joe, e se tivesse continuado a falar teria engasgado, pois Ned revidou, atirando o resto de seu café no rosto do rapaz.— Porra, Ned! — Joe cuspia as gotas de café que escorriam pros seus lábios — Não sabe br-rincar.
BR-RINCAR— Ned soltou uma longa gargalhada.
— Vai zoar meu sotaque, pô?
— Às vezes fica muito zoado.
— Cê tá muito soltinho hoje! Que que deu em você? Tá comendo alguém? — Joe começou a embaraçar o cabelo do amigo, com investidas rápidas das quais ele não conseguia desviar — Tirou o atraso, foi? — riu.
— Não comi ninguém! — Ned conseguiu enfim rebater os braços de Joe para longe — Mas eu acho que tô com uma mina aí.
— Ah é? Quem é a coitada?
— Eu nem te contei, né? É uma bailarina que trabalha naquele estúdio de fotografia.
— Ela dança balé no estúdio?
— Claro que não, né!?
— Mas só podia, cê vai sempre lá.
— Na verdade, eu a conheci no balé.
— Cê tá fazendo balé?
— Não, cara. Eu passei por lá, vi a garota e, sei lá, gamei. Fiquei tirando fotos dela escondido.
— Seu doente! Cê achou que ia pegar a garota assim? Perseguindo e fotografando que nem um doido?
— Não! Sei lá. Eu só quis fotografar porque ela é muito bonita. Eu nem pensei.
— E ela descobriu?
— Sim, e ficou irada, assustada, mas agora já me perdoou e a gente se beijou esses dias.
— Vai comer? — Joe esperou a resposta enquanto Ned soltou um risinho e sacudiu a cabeça como se não esperasse esse tipo de pergunta.
— Sei lá, cara. A gente tava nadando pelado no rio quando rolou o beijo, mas não rolou mais nada. — Ned levantou uma das pernas e dobrou-a junto ao peito, laçando um braço em volta dela para conter um pouco o frio que a camisa molhada o fazia sentir.
— Ah! Ela não ia te dar assim, né!?
— E a ruivinha?
— A Paige? É, depois de muito flerte e tensão sexual, eu finalmente consegui dar um beijo.
— Ela é difícil, né?
— Uhum, mas tá me deixando amarradaço.
— Vai comer? — Ned o imitou, rindo.
— Não! Comer, não. Vou fazer amor com ela.
— Ah! Não fode! — ele deu um soco no peito de Joe, enquanto ambos riam.
— Falando nela... Assunto sério agora — Joe levantou o indicador e arqueou as sobrancelhas para demonstrar a seriedade de sua fala ; ontem ela juntou a galera do incêndio pra mostrar umas gravações das câmeras de segurança que a Heather conseguiu. A gente assistiu e, cara... Tinha alguém lá, que invadiu, todo mascarado, tocou o terror, pichou as câmeras e tava, tipo, perto da gente...
— Licença? — uma voz estranha interrompeu a conversa, fazendo o sangue dos rapazes gelarem, alarmados com a inesperada aproximação de um desconhecido justamente no momento em que haviam partido para um assunto delicado e cheio de mistério. Ned e Joe, com olhos alertas, levantaram os rostos para a figura de um jovem de semblante amigável, que segurava panfletos nas mãos e estendeu um para eles. — Vai rolar uma festinha aqui no píer hoje, vai ser maneiro, a gente tá tentando revitalizar esse lugar. Se vocês puderem, chega aí e traz uma galera também.
— Ah... Valeu! — Joe falou arrastado, aceitando o panfleto do rapaz — Legal, cara. Esse lugar tava morto mesmo. — Eles assistiram o rapaz despedir-se e partir. Recuperavam-se do pequeno susto, enquanto Joe não pôde evitar de imaginar se viveria receoso, com a paranoia de reencontrar o criminoso, sem nem saber como era seu rosto, até que tudo fosse esclarecido e a justiça cumprida. 


...

   O som do pneu fino da bicicleta rolando rapidamente sobre o chão da ciclovia era só o que Keith conseguia distinguir do resto dos barulhos tímidos do ambiente. Apenas sua respiração, quando começou a ficar ofegante, pôde sobrepor os ruídos a sua volta. Ele fez uma curva para entrar em uma rua mais vazia, na qual era possível avistar ao final uma passagem para um parque em um terreno elevado e todo gramado. O jovem, vestindo uma bermuda tão curta que sentia-se ridículo e arrependido de tê-la vestido deixando seu finíssimo par de pernas parecer ainda mais longo, desceu da bicicleta e levou-a consigo pelo guidom até o alto do parque.

   Ele parou sob uma árvore grande e manteve-se de pé, relanceando ao redor do extenso parque como se procurasse alguém. Ao invés disso, encontrou algo perdido na grama. Largou a bicicleta ali, deixando-a tombar sobre o gramado macio e andou até o pedaço de papel que chamara sua atenção. Keith apanhou em sua mão a fotografia que logo deduziu que pertencia a April, pois fora ali que ele a encontrara a primeira vez, manuseando seu íntimo e misterioso álbum de fotografias.
   O rapaz observou a imagem capturada no papel que segurava; o enquadramento aproximado do busto e pescoço de uma figura feminina exibindo um colar com um pingente dourado, cuja forma ele não conseguia distinguir. O objeto parecia em perfeito estado, mas a incapacidade de reconhecer a figura esculpida, embora em perfeito estado, levou Keith a lembrar-se do pingente desfigurado que Brigitte encontrara nos fundos do prédio incendiado. Mas logo não pôde mais refletir sobre nenhum assunto, pois teve de conter o amargor que tentou subir a sua garganta ao lembrar daquela menina que partira seu coração.


...

   Um vento frio parecia açoitar qualquer pele que encontrasse descoberta no corpo de Tyler, que vinha acelerando contra o vento, pilotando uma motocicleta. Ele sequer diminuíra a velocidade para fazer uma curva que levava à rua de sua residência. Uma vez em frente à sua casa, freou bruscamente, fazendo empinar um pouco a traseira da moto e quase perdera o equilíbrio. Quando o pneu de trás encostou no asfalto novamente, ele chutou o descanso do veículo e pôs os pés no chão, ainda sentado. Tyler olhou para Brigitte, que estava ali de pé em sua calçada, a sua espera, e bufou, deixando suas costas curvarem-se como de cansaço.


— Porra, Brigitte! Que que cê tá fazendo aqui?
— Onde arranjou essa moto? — ela ignorou o rude cumprimento do rapaz.
— Não interessa!
— Você roubou?
— Já falei pra gente dar um tempo. Não vou conseguir te esquecer se você ficar me perseguindo.
— Não precisa me esquecer. — ela pausou o que parecia o início de um discurso e esperou uma reação que não chegara — O keith não quer mais saber de mim, então cê pode lembrar de mim o quanto quiser.
— Cala a boca, Brigitte! Para de se humilhar. Eu tô sendo um escroto com você, aliás eu sempre fui, e cê continua atrás de mim.
— Porque eu sei que você quer, e eu preciso.
— Para de dificultar! Que merda, Brigitte. Eu quero mesmo, mas eu não posso. Pela primeira vez na vida, eu tô tentando dar a consideração que o Magrelo merece.
— De que adianta agora?
— Não me fode, tá? Me deixa tentar.
— Eu vim aqui pra... A gente pode ser amigos, sei lá. Eu não tenho ninguém, você sabe. — a voz de Brigitte estava trêmula. Ela permaneceu por um momento quieta e parada sob o olhar semicerrado de Tyler.
— Eu tava passando aqui pra pegar umas coisas — começou ele, com a voz mais branda —, porque eu vou pra um racha de motos que vai ter hoje. — girou o rosto para longe da visão dela, como se escondesse uma expressão, então voltou a ela, mas com a cabeça baixada — Você pode vir junto, se quiser. — Tyler observou a menina levantar o rosto com os olhos de lágrimas cintilantes, recompondo-se e caminhando vacilante até subir na garupa da motocicleta. Ele segurou a direção e tirou o descanso, sentiu as mãos de Brigitte desconcertadamente tentarem segurar sua cintura, porém desistiram rapidamente, temendo serem mal-interpretadas, e seguraram as alças na traseira do veículo. Tyler deu partida e disparou com a moto ganhando velocidade, enquanto algumas folhas secas alçavam voo atrás deles.


...

   No mal cuidado apartamento de Joe e Ned, um perfume agradável e incomum havia invadido todos os cômodos daquela apertada residência. Ned, já impaciente, procurava algo para fazer enquanto esperava Joe, que levava o que parecia uma eternidade para terminar seu banho, cujo vapor conduzia o aroma dos diversos produtos de higiene que Joe raramente usava ao se lavar.

   O rapaz esguio, parado diante do corredor, entreolhou através da única janela da sala e notou que o céu daquela cidade não mais contava com a presença de um sol e havia acinzentado-se, deixando as penumbras crescerem entre os móveis toscamente dispostos da sala. Ned voltou o olhar para o corredor a tempo de testemunhar a cena na qual o amigo irrompeu do banheiro totalmente nu e molhado, cruzando o corredor até seu quarto, agitando ondas de vapor atrás de si.

— Cê tá perfumado assim por causa da Paige? — adivinhou Ned, que conhecia seu colega de apartamento bem demais para saber que seus banhos eram geralmente tão rápidos que talvez ele não usasse sequer um sabonete.
— Viu minha toalha por aí? — perguntou Joe, ainda pelado e agitado, saindo do quarto e vindo em direção ao amigo, que tinha uma careta de asco.
— Pô, você vai ficar desfilando esse pau mole pela casa? — protestou humoradamente.
— Para de frescura! Preciso da toalha! — Joe ameaçou abraçar Ned para secar-se em suas roupas. Quando ele deu um passo ágil para trás, Joe voltou para seu quarto deixando um rastro molhado no chão. 
— Quem você chamou pra ir na festa? — Ned gritou da sala.
— A Paige e o Keith, mas a Heather também deve ir. Cê chamou sua mina?
— Chamei, mas não sei se ela vai, porq... — uma campainha interrompeu sua frase. Ned prontificou-se a atender a porta para um sorridente Keith.
— E aí? — cumprimentou — Nossa! Por que a casa tá cheirosa assim?
— O Joe resolveu ficar limpo pra fazer bonito com a ruivinha.
— QUEM É? — Joe gritou de seu quarto, terminando de secar o corpo com uma camisa velha.
— Sua ruivinha! — brincou Ned.
— Paige? — gritou, alarmado.
— A outra!
— Sou eu, Joe! — esclareceu Keith.
— Por que cê tá engraçadinho assim hoje, moleque? — conferiu Joe, ao chegar na sala, já de calças, porém lutando para vestir uma camiseta — Só porque pegou uma mulherzinha?
— Quem você pegou? — perguntou Keith, quase que imediatamente, girando o pescoço até Ned.
— Cê não conhece. — contou ele.
— Tá bom. Onde a gente vai afinal?
— Numa festa no cais.
— Tem que pagar?
— Se tivesse, a gente não iria. — Joe riu.

   Apesar do cais localizar-se a apenas duas quadras do prédio em que estavam, os três rapazes saíram em trânsito pela cidade, a fim de buscar Paige e Heather em suas casas. Ned estava concentrado na direção de seu carro ruidoso, Joe deitou-se no banco de trás e Keith, animado como nunca esteve para uma festa, ligou o rádio sem cerimônias.

   O carro parou no acostamento de uma rua que parecia monocromática de tantos tijolos marrom-avermelhados que cobriam a fachada das casas. As meninas, equilibrando-se nos sapatos de salto alto, adiantaram-se para entrar no carro. Joe, com um pulo, levantou-se no banco para que elas sentassem. O veículo avançou em direção a uma rua mais iluminada e mais movimentada. Depois do leve empurrão que a inércia os conferiu, dos cumprimentos e das primeiras frases de um papo furado, Joe escorregou sua mão para cima da mão de Paige, que o encarou como se o recriminasse, porém abriu um sorriso logo em seguida e ele achou graça desses pequenos jogos que ela jogava.
   De volta a uma rua pouco iluminada próxima ao apartamento de Joe e Ned, eles dirigiam descontraídos, seguindo para o píer. Uma curva fechada e um motorista absorto em gargalhadas quase causaram atropelamento de uma figura esbranquiçada pelos faróis, que vinha atravessando a rua e apareceu como uma assombração. Os freios cantaram desafinados enquanto o carro parava abruptamente, empurrando o corpo de seus passageiros para a frente com força.

— APRIL? — berrou Keith, ao levantar o rosto reconhecer a pessoa tentando se equilibrar nos próprios pés, sob a luz dos faróis. Ele saiu do carro apressado e segurou os ombros da menina. — Você tá bem?
— Qu... Quase me atropelou. — gaguejou ela.
— Desculpa, você apareceu do nada. — explicou Ned.
— Ela tá bem? — perguntou Joe, saindo do carro acompanhado por todos os outros passageiros.
— Tô! Eu só tô meio tonta.
— O que você tava fazendo aqui no escuro a essa hora? — indagou Keith, quase recriminando-a. A menina pareceu ofendida, em seguida, confusa.
— Sei lá, eu tava... passando. Não lembro. — tentava recuperar os pensamentos.
— Vem com a gente. — sugeriu — A gente tá indo pro píer, tem uma festa lá.
— Festa? Eu não sou... de festas.
— Você tá comigo. E eles são legais. Não é nenhuma festa na casa da líder de torcida nojenta. Cê tá bem mesmo?

   April assentiu e segurou o braço de Keith.

— Alguém vai ter que sentar no colo de alguém no carro! — declarou Ned.



   O armazém principal do cais, assim como todo o píer, parecia completamente repaginado. Haviam colocado lâmpadas por toda a parte e só pela quantidade de pessoas que estavam ali, a paisagem já destoava de como costumava ser. Podia-se facilmente encontrar barracas e tendas precariamente improvisadas, com caixas térmicas de isopor, onde vendiam uma grande variedade de bebidas alcoólicas por um preço bem razoável. Algumas pessoas entretinham-se com jogos de beber no qual as derrotas não eram tão desvantajosas, outras dançavam na parte de dentro do armazém, que fora feita de pista de dança e abarrotada de luzes coloridas que só enfeitavam e pouco iluminavam. O grande gramado que separava a rua dos armazéns e do píer tornou-se um extenso tapete para alguns jovens desmaiados e alguns aos beijos. Ao fundo notava-se a agitação de pessoas debatendo-se para nadar na água não tão limpa do lago enquanto outras gritavam e pulavam excitadas no píer, parecendo divertir-se bastante.

   Os seis recém chegados pareciam ser os únicos que não seguravam um copo nas mãos, fosse ele de plástico, de vidro, fluorescente ou com pequenas luzes piscantes. No entanto, eles trataram de arranjar seus copos e suas bebidas assim que começaram a desfilar, contornando o gramado pela ruela de paralelepípedos, onde localizavam-se as primeiras barracas com seus vendedores ébrios e inexperientes.
   Ao aproximarem-se do brilhoso armazém principal, diminuíram o passo involuntariamente até que pararam ali sobre um chão concretado molhado de bebidas acidentalmente derramadas. Eles conversavam e comentavam tudo o que viam de interessante ou peculiar, exceto Keith e April, que tinham maior dificuldade de contribuir para conversas descontraídas em grupo. Então, como em um gesto solidário ou empático, o rapaz pousou a mão ossuda nas costas de April e a afagou levemente. A menina sorriu para ele e envolveu sua cintura com o braço.

— Olha, eu acho que encontrei uma coisa sua hoje. — revelou Keith a April, quase que num cochicho.
— O quê? Não lembro de ter perdido nada. — interessou-se ela.
— Encontrei uma dessas fotos instantâneas que você faz. Deve ser sua porque estava lá naquele gramado onde você me encontrou aquela vez.
— No parque. Cadê a foto?
— Não trouxe comigo. Mas era uma foto de um colar com um pingente dourado no pescoço de uma garota, mas não aparecia o rosto. Não sei se era você na imagem, mas até que parecia.
— Hmm. Não me lembro bem dessa, mas deve ser minha sim. Muitas vezes eu peço pra fotografar desconhecidos por aí. Eu devo ter gostado do cordão da alguém.
— Você é meio avoada, né? Tipo, vive no mundo da lua.
— Às vezes, sim e outras vezes... também, eu acho.


...

   Passado algum tempo, todos já estavam um pouco altos por causa das fortes bebidas que consumiam. Apesar dos caminhos estarem escuros, Joe e Paige foram caminhar pela margem do lago enquanto conversavam. Eles andaram até o fim da calçada de madeira que contornava a margem, e continuaram pelo chão gramado na altura mais inóspita do lago. Paige resolveu tirar suas sapatilhas para sentir a relva fina molhar seus pés com o orvalho, e praticamente obrigou Joe a fazer o mesmo, e assim ele o fez. O rapaz rezou para não exalar nenhum odor daqueles tênis que nunca foram lavados ou daquelas meias que ele encontrou no chão de seu quarto e não tinha muita certeza se de fato pertenciam a ele.

    Estavam tão longe dos galpões que nem conseguiam avistar as luzes da festa. A pouca iluminação que a lua provia os obrigava a enxergar com as pupilas bem dilatadas e conferia um visual especialmente sombrio àquele canto de grama onde eles sentaram-se encarando a extensão do lago. Paige sentiu um calafrio com uma repentina brisa que escorregou pela água até eles, então ela segurou-se no braço de Joe para se aquecer. Ele a envolveu com os braços e afagou seu corpo, tentando esquentá-la.

Por que viemos tão longe? — perguntou ela.
— Sei lá. Pra ficarmos sozinhos? — adivinhou ele.
— Bom motivo. Mas é tão escuro aqui.
— Eu consigo te enxergar, já tá de bom tamanho.
— Por quê? — riu.
— Mas, na verdade, só ouvir sua voz... — Joe falava com um ar de sonhador.
— Você tá me elogiando?
Eu sei, é bem brega. Só quero te dizer o quanto eu te admiro.
Você não tem cara de ser tão legal quanto você é.
— Isso foi um elogio? — brincou — Eu não tenho cara nenhuma nesse breu.
— Tem sim, eu posso ver seu rosto.
— E gosta do que vê?

   Paige assentiu, passando a mão pela barba rala e falha do rapaz. Logo, ignorando outro calafrio, ela avançou para os lábios de Joe, que segurou sua nuca enquanto se beijavam ternamente.
   Agora deitados na grama, continuaram aos beijos durante alguns momentos. Era inegável que aquele casal havia se gostado desde quando se conheceram e a afinidade entre eles fora crescendo consideravelmente assim como crescia a excitação e a tensão sexual agora. Joe não entendia muito bem porquê ele, com todo o atrevimento que teve com outras parceiras, com as quais correra tudo bem, não avançava para tentar algo mais sexual com Paige ali. Talvez, no fundo, ele achasse que se apressasse as coisas ou fizesse algo de errado, ele a perderia ou a fizesse sentir desrespeitada, e ele simplesmente não podia deixá-la chateada. Foi quando para sua surpresa, a menina segurou sua mão e a conduziu até o fundo de sua saia, deixando-a lá entre suas pernas. Joe entendeu o gesto e começou a estimular a garota, que gemeu de um jeito que soou como uma canção nos ouvidos do rapaz.
   Minutos depois, que pareceram longas horas, eles estavam seminus e, com suficiente ternura, mergulharam num êxtase sexual. Conduziram suavemente aquele frenesi. As condições nas quais se encontravam, a relação entre eles e o cenário um tanto romântico e exótico, era propício para que eles degustassem calmamente o prazer que geravam um no outro. Longos minutos de volúpia se passavam à medida que os gemidos se intensificavam. Joe preocupou-se em deixar Paige atingir o ápice de prazer para, em seguida, ele se permitir fazer o mesmo.
   Joe olhou nos olhos de Paige, que cintilavam pontos de luz da lua, com o olhar mais admirado que alguém pode ter. Eles sentiam como se seus corpos tivessem sido feitos um para o outro, pelo jeito que a química funcionara entre eles e como eles encaixavam-se naquele abraço. Ele acariciava o rosto dela pensando se o que ele acabara de fazer com uma criatura tão aparentemente divinal era um pecado, uma violação ou algo belo e terno. Ela parecia tão confortável e ainda com seu brilho natural que ele teve toda a certeza de que aquilo era certo.


...

   Eram 3h27 da madrugada, e todos os jovens ainda estavam curtindo a festa. Metade deles haviam abusado das bebidas e das drogas e não estavam mais em condições de curtir tanto assim. A outra metade ainda gargalhava alto, se amassava com alguém ou alguéns ou dançava incansavelmente, como Heather. Joe e Paige já haviam voltado para perto dos armazéns e estavam radiantes, de modo que parecia estar estampado em suas testas "Nós fizemos sexo", pelo tanto que isso havia demorado para acontecer entre eles. Keith e April também estavam grudados um no outro, eram os que haviam bebido menos e conversavam bastante. Ned parecia o mais entediado, com uma expressão meio impaciente, ele ignorava uma garota desconhecida que o lambia o pescoço, tentando seduzi-lo, sem se tocar de que ele não estava a fim.

— Às vezes eu acho serião que você é gay. — contou Joe pro amigo, mesmo com a garota rejeitada ao lado dele — Sério, tipo homossexual mesmo, sabe.
— Eu sei o que quer dizer "gay". — garantiu Ned, ainda blasé — e você tá sendo meio preconceituoso.— Por quê?
— Só porque eu não quero pegar a mina não significa que eu sou gay.
— Você não quer me pegar? — perguntou a garota, decepcionada, largando o pescoço dele, que somente a respondeu com um olhar que garantia a obviedade da resposta, no que ela se afastou sem dizer mais nada e sumiu na multidão.
— Eu só tô te zoando, cara. — explicou Joe.
— Dizer que ele é gay não é nenhuma ofensa. — opinou Keith — Eu sei porque certas pessoas — e assim que referiu-se a seu amigo Tyler me chamou de viadinho a vida inteira.
— Ele tava tentando te ofender, mas você não se ofendeu. — concluiu Joe — Mas eu não tava tentando ofender o Ned, pô.

   Keith pareceu que iria dizer mais alguma coisa, mas se disse, nem ele pôde ouvir, pois o som áspero e ensurdecedor de umas dez motocicletas irrompeu do nada e tomou conta de todo o lugar. Enquanto todos ali franziam o cenho e xingavam, embora alguns gritassem em comemoração, os motociclistas surgiram na rua asfaltada e desaceleraram, parando em frente ao gramado do armazém. As pessoas da festa começaram a dirigir-se aos montes para o gramado, rodeando as motos, como que para assistir a uma apresentação de rua. Sem entender, Joe, Ned, Keith, Paige, Heather e April, foram instigados a levantarem-se também e conferir aquele espalhafato. Aparentemente, grande parte das pessoas ali já sabiam que um racha de motos fazia parte da programação da festa, e estava prestes a ter início.
   Sem saber como exatamente passaram pela multidão, os seis jovens encontraram-se na primeira fileira para assistir aos motoqueiros preparando-se para o racha. Uma das motos, carregava mais uma pessoa, uma moça. Keith olhava petrificado, ao reconhecer Brigitte descendo da garupa da moto guiada por Tyler. Ela retirou o capacete sem nem precisar balançar os cabelos curtos para ajeitar. Tyler olhou ao redor, reconhecendo a plateia e seu olhar passou ligeiramente pelo de Keith, seu rosto enojado chamou a atenção deixando Tyler com uma expressão assustada, até que alguém berrou para que começasse o racha. Brigitte afastou-se das motos, juntando-se à multidão, parecia que evitava olhar para Keith, mas o rapaz sentia que ela já estava ciente da presença dele.

— Vamos embora, por favor. — pediu ele, sem direcionar o pedido a ninguém em específico. Mas ninguém pareceu ouvir sua voz baixa e quase trêmula.

   Antes mesmo das motocicletas arrancarem para correr, o som de uma delas tombando no asfalto alertou a todos. Tyler havia largado sua moto, pegou Brigitte pelos braços e dirigiu-se até Keith e seus amigos. O ruivo queria sair correndo dali, mas não conseguia se mover diante do que assistia.


— Vocês têm que ficar juntos. — cuspiu Tyler, empurrando Brigitte na direção de Keith. — Você gosta dela e você tem que ter o que quiser.

   Todos permaneceram quietos. Brigitte olhou para Keith com o semblante mais penável que podia ter.

 
— Você não tem o direito de decidir com quem eu devo ficar. Eu não sou um pedaço de carne que você atira a quem você acha que me merece. — respondeu Brigitte, de costas para Tyler. 

 — Vocês se merecem. — retrucou Keith, com os lábios contraídos, lutando para dizer aquilo, quase como se não quisesse. Brigitte, então, se virou e disparou em direção a lugar nenhum, desaparecendo entre o aglomerado de pessoas.
 — Eu não mereço nada. — corrigiu Tyler. — Eu não preciso dela. Nem de você. Se agora querem ficar juntos ou não, o problema é de vocês. 
 — Cê não precisa, né? Cê tem um amiguinho novo, uma namoradinha nova que eu tô vendo. Curtindo uma festinha. Tu nem gosta de festa. Olha a hora, cê gosta de ficar em casa. Vai pra casa, Keith, com seu amiguinho gringo. — Tyler virou-se para Joe, agressivo — Ele é tão gente boa, ele é tão maneiro. Todo o mundo gosta dele. Vocês, sim, vocês se merecem. Eu sou um escroto, eu sou um bostão, eu não te mereço. — apontou de volta para Keith Eu não me encaixo mais no seu mundinho, Keith. Magrelo. Eu nunca me encaixei. Eu nunca prestei. Nunca vou prestar. Então que se dane, inglesinho. — Ele aproximou-se de Joe, encarando-o, olhando bem nos olhos Deixa o magrelo em casa, inventa um apelido pra ele também, come o cu dele, foda-se!
— Que que cê tá falando, moleque? Cê tá drogado. Vai emb...
Eu não dou uma dentro — Tyler o interrompeu , mas você é tão perfeitinho. Eu to merecendo um soco na cara, mas você tá aí sem fazer nada. EU TÔ TE PROVOCANDO, SEU BABACA! SOCA A MINHA CARA! — Ele gritava com o rosto bem perto do de Joe, que sentia sua saliva espirrar em seu rosto, mas contia a raiva e permanecia quieto Ninguém vai ligar, seus amiguinhos não vão brigar contigo se você socar um drogadinho qualquer. Eu não posso socar primeiro, senão eu vou tá mais errado ainda, não é? Mas se bem que, eu já tô bem errado, eu já sou o escroto, eu não ligo de te socar agora. Mas eu quero que você soque. Você é tão legal que até o seu soco deve ser um carinho.
— Eu não vou te socar.
— Ah você vai. ANDA! — Tyler empurrou Joe pelos peitos — ME DÁ UM SOCO! ANDA!
— PARA, TYLER! — gritou Keith, inutilmente, pois Tyler ignorou-o e lançou um soco bem forte no rosto de Joe, que há meio segundo estava completamente contido, agora estava tomado de cólera e revidou com dois socos seguidos.

   Os dois rapazes engalfinhavam-se enquanto a multidão abria espaço para que nenhum chute ou soco a atingisse, alguns filmavam com os celulares e outros gritavam incentivando o espetáculo. Heather ordenava que parassem e estava a ponto de intrometer-se entre eles para apartar a briga. Ned a segurou e tomou a tarefa para si, porém Keith chegou na sua frente. No que Joe caiu no chão, Keith tentou empurrar Tyler, que instintivamente revidou com um soco. Keith cambaleou um pouco, e tombou atordoado no chão enquanto Tyler arregalava os olhos, assustado com o que acabara de fazer. Teve apenas 1 segundo para arrepender-se até que Joe e Ned voaram para cima dele como dois leões atrás de uma presa e depois do impacto, não pôde mais ter consciência de nada.