05 dezembro 2010

Youth on Papers - Capítulo 2

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Capítulo 2 - Funeral dos Sonhos Perdidos


A poeira flutuando por todo o lado não incomodava mais, tão pouco o mau cheiro do quarto bagunçado. Keith praticamente não respirava, já não sentia vontade. Passara a maior parte desses três dias, após o traumático incêndio, jogado em qualquer canto de sua casa, apático. Ele ligava a TV, ficava encarando-a por horas sem prestar atenção em nada e sem esboçar qualquer expressão. Seus pais viajavam a negócios e ele estava sozinho. Todo e qualquer som que ecoava nas vastas paredes fazia-o sentir como se vivesse no meio do nada, triste e solitário. Tivera que expulsar Tyler de lá inúmeras vezes, não queria companhia. Keith estava de frente ao espelho e nem mesmo ele saberia dizer o que seu rosto escondia na expressão de boneco. Seu cabelo estava despenteado e suas roupas amarrotadas, ele desceu as escadas se arrastando. A campainha tocou e o som o irritou. Enquanto passava em frente à porta gritou para que fosse embora, quem quer que fosse. Então Joe virou a maçaneta e entrou. Keith, no meio do corredor, se virou lentamente.

— Já chega, não é, Keith? Tá na hora de você voltar pra sua vida. — disparou Joe.
— O que você tá fazendo? Por que está aqui? Você nem me conhece. — reclamou Keith.
— E você não conhecia aquele cara no incêndio. — Joe pausou brevemente — Olha só pra você. Chega disso, Keith, supera. Todo o mundo tá chateado, mas aquilo... foi um acidente.
— Que eu poderia ter impedido. — acrescentou.
— Não, você não tem nada a ver com a morte dele.
— Por que eu tô me sentindo tão culpado? Tão impotente? — Keith sentiu seus joelhos cederem e ele caiu sentado, escorando-se nas paredes. Joe andou até ele e segurou seus ombros.
— Você é uma pessoa boa demais, Keith, mas tem que parar de pegar os problemas dos outros pra você.
— Você age como se me conhecesse muito bem.
— Eu conversei com o Tyler. Ele sim, te conhece bem. Tudo o que ele disse, por incrível que pareça, fez sentido.
— O que ele disse?
— Disse que você é um viadinho, mas é o melhor viadinho que existe. — Joe estendeu a mão para ele. Keith fez um bico e o olhou de baixo. — Anda! Você precisa sair daqui.


Mesmo com previsão de sol, Paige carregava um guarda-chuva enquanto caminhava até a cafeteria chique e cara onde Heather adorava lanchar. Fazia barulho batendo a ponta no chão, usando-o de bengala. O vento soprou forte contra elas, empurrando os cabelos para trás e fazendo o vestido de Paige dançar. Heather cruzou os braços e tremeu, com frio.

— De que adianta fazer sol se ainda está frio? — reclamou Heather.
— Eu não confio no clima dessa cidade. — disse Paige, e fungou.
— Eu gosto do calor. As pessoas andam mais despidas no calor.
— O frio nunca te impediu de tirar suas roupas, Heather.
— Tem razão. — ela riu.
— O tempo tá fechando, isso é meio triste.
— Por que? Você não gosta da chuva?
— Porque parece que tudo tá frio, nublado e triste desde o incêndio. Hoje o sol apareceu finalmente, como se estivesse informando que o menino já encontrou a luz ou algo do tipo. Mas continua frio, porque... o céu ainda lamenta. — Paige disse vagarosamente e desanimada. Apertou as pálpebras, protegendo os olhos de outro golpe do vento, estavam no topo da ladeira. Ao abrir novamente os olhos, Joe e Keith surgiram-lhe à vista, virando a esquina ao final da ladeira. Elas pararam e esperaram, a cafeteria ficava logo ali na parte mais alta.

Eles as alcançaram por fim, Joe sorriu para elas e Keith foi menos entusiasmado. Eles estavam sem rumo algum, era apenas uma fuga planejada para Keith. Um casal saiu da cafeteria cobrindo os braços e a sineta tocou quando moveram as portas. Paige, então, convidou os garotos para comerem juntos.

— Tem que colocar um sorriso nesse rosto, Keith. — disse Heather, mexendo seu milkshake com o canudo. Ele se esforçou para sorrir, mas logo o sorriso desmanchou.
— Olha — começou Paige —, o que aconteceu não foi nossa culpa. Aquele menino ficou preso lá, como nós ficamos. Ele só não pôde escapar porque, infelizmente, estava desmaiado.
— Justamente por isso que ele precisava de alguém pra tirá-lo de lá. — explicou Keith.
— Você é um herói, cara, mas existem coisas mais fortes que você. Se tivesse continuado lá, não só ele, mas você também teria morrido queimado. — disse Joe.
— Eu sou um incompetente. Eu não consegui...
— Você tentou. O resto não estava nas suas mãos. — uma voz a mais se fez presente na conversa. A moça na mesa ao lado, sentada de costas para Keith, se virou e ele reconheceu seu semblante cansado e bonito. Era Brigitte. — Odeio me relacionar com as pessoas daqui. É um lugar onde venho pra ficar sozinha, mas agora eu sei quem são e vocês resolveram frequentar o meu lugar favorito. — disse num tom de repreensão. Ela se levantou, pendurou a bolsa no antebraço e caminhou em direção à saída.
— Espera, Brigitte. — Keith se ergueu na cadeira e não disse mais nada.
— Como você está? Com... tudo isso? — perguntou Paige, com compaixão nos olhos.
— Na verdade, eu estou preocupada. — Brigitte umedeceu os lábios.
— Por que preocupada? — Paige a acompanhou com o olhar enquanto ela se sentava na cadeira da ponta.
— Bem, isso ainda não acabou. Eles vão querer saber de tudo. Ficamos presos no auditório e tínhamos Álcool, cigarros e drogas. Havia um menino desmaiado. Ao que me pareceu, era overdose. A gente colocou fogo no lugar, agora está em ruínas e um garoto morreu. Brigitte os encarou, esperando o silêncio passar. Eles engoliam em seco.
— F-foi... um acidente. — Paige olhava para a mesa sem ver nada. — Ninguém matou ninguém.
— Não foi o que eu disse. — retrucou Brigitte Tyler não devia andar com cigarros pela escola. Não devíamos carregar álcool nas mochilas. Quem sabe, assim, o lugar não teria explodido em chamas. Talvez aquele garoto estivesse vivo agora. — ela levantou rápido e balançou a cabeça — Pode acreditar, eles vão querer culpar alguém.


O tempo passara mais rápido do que Tyler pudera perceber. Já ia anoitecendo, o vento soprava mais violento agora. Ele demorou a conseguir acender o último cigarro que lhe restava. Havia dormido a tarde inteira e agora estava sentado à margem do Meadow Lake, com frio e longe de casa. O crepúsculo era geralmente uma terapia para ele. Um anestésico para sua mente. O céu ostentava-se em um gradiente agradável aos olhos, do azul para o amarelo. Os postes se acenderam automaticamente. Tyler foi surpreendido quando alguém se sentou ao seu lado, sem dizer nada.

— Por que você sempre chega assim? — Tyler bufou.
— É inevitável. — disse Brigitte, olhando para o céu. Fez-se silêncio por alguns minutos.
— Eu tô fodido, não tô? — Tyler quebrou o gelo.
— É bem provável.
— Só eu tava fumando e a porra do lugar pegou fogo.
— Tyler — ela fez uma pausa —, você não é assim o tempo todo, é?
— Assim como?
— Assim tão irritante e revoltado.
— Eu não falo sozinho, então, acho que não. Não o tempo todo.
— Cê tá só fazendo tipo?
— Não. Eu sou meio revoltado mesmo. — Tyler petelecou o resto do cigarro para longe — Sabe porquê? As pessoas são muito falsas, elas andam de um lado pro outro com esses sorrisos falsos. Todo o mundo tão cordialzinho e tão educadinho mas, por dentro, estão pensando um monte de merda. Escondendo o que elas são e todo mundo se une pra te dizer o que fazer e como ser. Sempre a mesma merda, o tempo todo, em qualquer lugar. Isso me irrita, por isso eu sou descaralhado assim e gosto de constranger essas pessoas. — ele bufou alto — Por que eu tô te falando isso, hein?
— Me diz você.
— Você é muito estranha, garota. — ele balançou a cabeça.
— Sabe, eu não ia com a tua cara, Tyler. Aliás, ninguém vai, mas até que você pode ser tolerável.
— Sabia que você queria me dar.
— Não vá contando com isso, imbecil.


Joe, Keith, Paige e Heather ainda estavam na cafeteria, Brigitte os deixara algo a mais para se pensar. Tentaram esquecer de tudo, ao menos por hora, mas era inevitável. A sineta da porta tocou outra vez, chamando-os a atenção. Joe reconheceu os cabelos cor de palha do rapaz que entrava distraído.

— Ei, Ned! — Joe gritou e acenou com o braço para ele, que avistou e se aproximou.
— E aí? — eles apertaram as mãos — Você nunca vem aqui, por que me chamou?
— Cê disse que tava de bobeira, eu te chamei aqui. Eu tô com eles. — Joe se levantou — Ahn, pessoal, esse é o meu amigo, Ned.
— Prazer, me chamo Heather. Gostei de você. — Heather tomou a liberdade e ajeitou a franja dele. Depois que todos se cumprimentaram, Ned se sentou com eles, pediu um suco qualquer e não falou muito desde então. O silêncio então fora quebrado por Joe, que acabou assustando os demais quando gritou:

— Caralho! — ele parou e levou as mãos à testa — O enterro... o enterro simbólico não é hoje?
— Sim, é hoje. Que droga! — Paige se levantou rapidamente — Que horas são?
— Já anoiteceu. Já era. Já acabou há muito tempo. Droga! — Keith socou a mesa.
— Não acredito! Como fomos esquecer? — Heather deitou a cabeça para trás.
— Que se dane se o enterro já aconteceu. Vamos lá mesmo assim. — Joe decidiu por todos. Jogou o dinheiro da carteira sobre a mesa e partiu em passos rápidos. Todos o seguiram sem pensar muito.


O cemitério não era tão longe dali. Mesmo que fosse, teriam de andar com seus próprios pés para chegar lá, já não tinham mais dinheiro para um táxi ou ônibus. Keith andava na frente, apressado. Joe tinha as mãos no bolso e Ned o acompanhava, confuso. Paige e Heather andavam abraçadas e quietas atrás deles. Com um estalo repentino de seus pés contra o chão, Keith começou a correr. Ele arfava e só olhava para frente, desejando que chegasse logo. Fora seguido de gritos de protesto dos outros. Joe e Ned, então, correram para acompanhá-lo. As meninas pararam, confusas, e logo foram obrigadas a correr também. Foram todos aos tropeços, ofegantes, cada vez mais distantes de Keith, que parecia correr como um lince. Seus membros, magros, tinham se tornado frágeis borrões enquanto corria sob a luz dos postes. Ele virou a esquina e desapareceu. Joe gritou seu nome e ninguém respondeu. Ned o informou que estavam chegando.
Por cima dos muros puderam ver estátuas grandes de anjos sobre os túmulos. A rua do cemitério era, ironicamente, escura. Heather sentiu um calafrio e apertou o braço de Paige, com medo de estar em um cemitério à noite. Ela parou e hesitou em continuar, porém se forçou a ir em frente. Tomou coragem quando buscou proteção nos braços de Ned, abandonando os braços femininos da amiga. Eles chegaram ao enorme portão de grade retorcida em figuras angelicais, diante do qual Keith estava parado. Ele empurrou e o portão se abriu com rangidos.
Entraram sorrateiramente, se escondendo do coveiro ou de qualquer outra pessoa que tomasse conta do lugar. Não pretendiam implorar por permissão. Andaram pelos caminhos entre os túmulos e chegaram ao gramado. O campo aberto com inúmeros túmulos protuberantes da grama verde bem cuidada. O vento movia as árvores altas ao redor dando-lhes arrepios e alimentando a imaginação assombrada. A lua brilhava forte sobre eles, por entre uma abertura nas nuvens, permitindo que enxergassem cores insaturadas. Não sabiam bem onde procurar. Avistaram um túmulo coberto de flores e faixas onde um casal vivo de braços dados se postou em frente.

— Só pode ser aquele. — disse Keith, com a voz fraca.
— Meu Deus! Tem um casal ali. Eu tô com medo. Vamos ficar aqui, por favor. — Paige fincou os pés no chão.
— Esperem. Keith deu alguns passos. O homem virou o rosto para eles. Apesar das sombras o cobrindo, Keith pôde reconhecê-lo. — É o Tyler, com a Brigitte. — então ele andou até o túmulo que cheirava à flores, todos o acompanharam. Ele parou ao lado de Tyler e caiu de joelhos. Os outros ficaram em pé diante da lápide.

— O nome dele... era Christopher. — disse Tyler, quando todos pararam.

Keith se arrastou até ficar bem perto da lápide, que era quase invisível no escuro. Sentou-se de pernas cruzadas e ombros caídos, com a voz chorosa e triste, ele tentou formar palavras. Todos ficaram quietos, de luto, o medo se esvaiu e agora só a lamentação pairava entre eles. Formaram seu próprio funeral.

— Christopher, eu poderia ter salvo você. Poderia, mas não pude. Você estaria vivo agora e poderia rir do que aconteceu... com seus amigos e sua família. Contar sua aventura contra o fogo. Todas as pessoas que te amavam e estavam acostumadas com a sua presença agora terão de lidar com a perda. Aprender a viver sem você. Todos os seus planos para o futuro agora não valem de nada. Toda a sua esperança, todo o seu esforço, todas as suas apostas, tudo isso foi uma grande perda de tempo. Você era tão jovem, como eu. Espero que tenha feito ao menos metade das coisas que sonhava em fazer; que tenha perdido a virgindade; que tenha amado alguém; que tenha assistido o último episódio da sua série favorita; que tenha terminado de ler o seu livro; que tenha se emocionado; sorrido todos os dias; que tenha feito amigos para toda a eternidade; que tenha deixado algo que faça todos lembrarem de você. Eu nem mesmo te conhecia. Não sei se já tinha encontrado alguma felicidade. Talvez você fosse cheio de sonhos. Talvez quisesse mesmo morrer. Mas se eu pudesse salvar a sua vida, eu salvaria. Eu não ficaria parado vendo a sua juventude ser interrompida. Me desculpe... — Keith parou com um soluço de seu choro — Me desculpe por não conseguir te tirar de lá. Você ainda estava vivo. Mais alguns passos e... mas eu não... não consegui. Você foi entregue ao fogo. Somos tão frágeis, não é? Nós não podíamos contra ele. Você tinha que ir. Mas... por que você tinha que ir? — todos em volta de Keith choravam abraçados, silenciosos e emocionados. — Acho que nunca vamos saber. Se existe céu e inferno, eu espero que tenha ido pro melhor lugar que encontrar. Se não gostar daí, espero que me perdoe. Agora eu vejo que não tive culpa. eu tentei te salvar mas sou tão pequeno e fraco quanto você. Eu não posso contra o destino. Pode ir, se livra desse mundo e descanse em paz. Pelo menos... você será eternamente jovem.




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