20 janeiro 2012

Youth on Papers - Capítulo 3

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                                   Capítulo 3 - Polaróides


   O verde da grama sob seus pés parecia estar desbotando. April prestava atenção em cada passo que dava em direção à lugar nenhum. Ela se sentou de pernas cruzadas no meio daquela praça, de onde estava podia-se ver a cidade do alto, mas a cidade pouco importava para ela. Abriu sua bolsa e pegou uma pequena pilha de polaróides. Então começou a colá-las em um grande livro onde haviam várias outras fotografias e alguns textos por ela manuscritos. Ali era onde guardava suas memórias. Ela agora segurava uma das fotos ainda a ser colada, nela havia um rapaz com uma garrafa de cerveja numa estação de metrô. A garota sorriu ao contemplar a imagem e quando lembrou o nome dele, ouviu sua voz.

— Eu não estava muito fotogênico nesse dia. — disse Joe, chamando sua atenção. Ela virou assustada e sorriu. — Nos encontramos de novo, hein!?
— Joey!
— Lembra meu nome. — ele sorriu.
— Não lembra o meu?
— April. Claro que lembro. — Joe sentou-se ao lado dela.
— O que... O que está fazendo?
— Ahn... me sentando aqui.
— Não. Por que está aqui... comigo?
— Não gosta de companhia?
— Não sei. — seu olhar agora era vago. Joe esperou um complemento na resposta dela, mas não houve nenhum, então ele riu.
— Gosta da minha companhia?
— As pessoas costumam me deixar sozinha. Elas não me fazem companhia.
— Bem, eu estou aqui.
— Eu não te conheço. — disparou April e quando Joe ia responder, ela o interrompeu: — Mas acho que gosto de você. — Joe respondeu com um sorriso.

   April, delicadamente, virou a foto de Joe, passou cola e pressionou contra uma folha branca de seu livro de fotografias. Com uma caneta enfeitada, ela escreveu na mesma página abaixo da imagem: Joe, ele é aquele garoto que aparece nos meus sonhos e me beija. Enfim o reencontrei.

— Eu apareço nos seus sonhos? — perguntou Joe ao ler a nota, as sobrancelhas franzidas.
— E me beija. — acrescentou April, surpreendentemente indiferente. Joe a encarou por um momento. Logo, se apoiou em um dos braços para se inclinar até ela e, com sua outra mão no rosto dela, ele a beijou. Ela sentiu o tempo parar. — Como nos meus sonhos.


   Keith ainda dormia, enquanto que a luz do sol que invadia seu quarto o acordava pouco à pouco. Ele se revirou em sua enorme cama e, meio acordado, pensou ter visto Tyler sentado na poltrona próxima à janela. Com um susto, ele despertou. Esfregou os olhos somente para descobrir que Tyler estava realmente ali empoleirado como uma assombração.

— Quer me matar de susto? — reclamou Keith.
— Bom dia, magrelo. — Tyler sorriu, sarcástico.
— O que você tá fazendo aqui? Como entrou?
— Pela sua janela. — Tyler apertava seu isqueiro para acender um cigarro — Vamos fazer alguma coisa agora.
— Não. Eu acabei de acordar. Apaga essa droga, Tyler.
— Deixa de ser babaca, Keith. Você precisa se divertir, cara.
— Eu não curto o seu tipo de diversão. — Keith se deitou, bufando.
— Não mete essa! — ele pulou na cama e tragou seu cigarro.
— Some daqui, Tyler! — disse keith, com o rosto entre os travesseiros. Tyler riu.
— Olha, eu trouxe umas pílulas pra gente.
— Eu não quero.
— Tsc! Porra, Keith! Eu não vou te deixar em paz até você levantar dessa cama e voltar a viver. Você ainda tá trancado em casa se doendo por causa daquela merda de incêndio.
— Não, Tyler, eu já superei, tá legal? Eu tô bem. Eu só não quero sair agora.
— É por isso que você ainda é virgem. — disse Tyler, bufando.


   Uma batida forte na porta da frente assustou Ned. Logo em seguida, ouviu Joe gritar o seu nome, então foi abrir a porta para seu amigo, com quem dividia um apartamento pequeno e velho. Com a mesma cara entediada que sempre lhe caíra tão bem, Ned apenas olhou para ele e não disse nada, sabendo que o amigo era o único que entendia esse seu jeito de se comunicar. Joe entrou, deu um soco no ombro dele e se jogou no pequeno sofá da sala.

— Você me assustou. — reclamou Ned.
— Tá devendo à quem?
— Onde estão suas chaves?
— Acho que as perdi. — Joe apoiou os cotovelos nos joelhos quando se sentou no sofá surrado da pequena sala. — Olha, hoje é sábado. Vamos sair, fazer alguma coisa.
— Cara, eu não tô muito no clima.
— Você nunca tá. Por isso você tem a mim pra te deixar no clima.
— Isso foi meio gay.
— Que seja! Eu pensei em chamar aquelas garotas, a Paige e a Heather, e a gente faz tipo um double date. Que que cê acha?
— Eu ficaria com a Heather?
— Claro.
— Mas ela é... meio atirada, meio vadia, sei lá. Pelo menos foi minha primeira impressão. Eu não curto muito, cê sabe.
— Cara, a Paige é ruiva e já combinamos que eu sempre fico as ruivas.
— Aquele magrelinho também é ruivo, vai querer ficar com ele?
— Claro, por que não? — respondeu Joe, irônico.
— Tá. Pode ser, pode chamar as garotas. — Ned, ainda entediado, cruzou os braços. — Olha, hoje é seu dia de lavar a louça, se você deixar tudo pra mim de novo eu furo teu olho com a ruivinha.

   Em sua pequena casa de paredes azuladas, Brigitte se maquiava tentando esconder as grandes olheiras que cultivava contra sua vontade. Tinha a impressão de que sempre as tivera, desde pequena. Ela se considerava à cada dia mais feia e se entristecia à cada pigmento que esfregava em seu rosto. "Fui tão linda um dia, que mal precisava de toda essa porcaria. Mal precisava me pintar, me esconder. Mas agora... não mais. Não sou bonita. Nem por fora, muito menos por dentro. A beleza é tão frágil, tão triste". Ela refletia em pensamento, temerosa de que estivesse pensando alto. Já se acostumara a ficar só, mas falar sozinha a assustava mais do que qualquer outra coisa. Tinha medo de que passasse a não ouvir mais nenhuma outra voz além da sua própria. Brigitte, então, abriu uma caixinha de pó-de-arroz com um espelho. Despejou um pouco do pó branco no pequeno cristal liso que refletia os finos grãos, aproximou seu nariz esguio e quase arrebitado e aspirou o conteúdo rapidamente. Enquanto apertava as narinas para sugar todo o pó dali, recebera em seus lábios o gosto salgado da primeira lágrima do dia.

   Mesmo contra a sua vontade, Keith seguiu Tyler pra onde quer que ele o levaria. O garoto magricela parou de se importar. Ele andava cansado e quieto, enquanto seu amigo não se calava por nada. A noite estava prestes a chegar e a rua foi perdendo suas cores. Tyler passou o braço pelos ombros de Keith e o arrastou para dentro de uma lanchonete suja. Keith franziu as sobrancelhas, pois estranhara aquele lugar, que lhe parecia um estabelecimento comum, banal. Se perguntou por quê Tyler insistira tanto em tirá-lo de casa já que o levaria a um fast food qualquer. Não era bem o tipo de diversão que Tyler costumava prometer, não era com comida que ele tentava esquecer os seus muitos problemas.
   Ele acendeu um cigarro e abanou a fumaça quando Keith tossiu. Fez o pedido ao garçom, que era lerdo, tinha os olhos vermelhos e aparência cansada. Tyler havia pedido pelo número, de modo que Keith não soube o que lhe preparavam. O pouco de curiosidade que lhe ocorreu o fez olhar ao seu redor à procura de um cardápio, mas não havia nenhum. O garçom andou lento e os trouxe o pedido numa embalagem para viagem. Embora tivesse sido muito rápido, Keith não se importou em estranhar. Tyler pegou, pediu que anotasse em sua conta e andou para o fundo da lanchonete. Keith continuou ali sentado, até que Tyler virou e o chamou. Ele não se deu o trabalho de perguntar para onde iriam, apenas deixou que o amigo o guiasse para uma porta nos fundos. Quando essa se abriu e uma escada que os levava para baixo apareceu, Keith sentiu uma tremenda insegurança. Porém, e ele não fazia ideia do porquê, na companhia de Tyler ele se sentia seguro, mesmo achando que não deveria.
   Ao final das escadas, uma porta dupla e pouquíssima luz. Keith seguia Tyler e, ao atravessar as portas, foi parar numa boate subterrânea. Ele mal precisou fazer qualquer esforço para andar, fora arrastado pelas pessoas que dançavam frenéticas ali e somente assim ele se locomovia.
   Observava Tyler, histérico e elétrico, entre as luzes coloridas e piscantes, que pouco iluminavam. Seu amigo sumia de vez em vez. Quando voltava, ele gritava alguma coisa tentando animá-lo. Mas Keith permanecia blasé. Tyler então, sentou-se ao lado dele e lhe estendeu a mão, oferecendo-lhe uns comprimidos. Disse, rindo, que eram do melhor fast food da cidade. Keith olhou para aquilo com desprezo e bufou. Tyler insistiu e Keith resistira. porém, assim que o ruivo se distraiu, ele pôs 3 dos comprimidos em sua bebida.
   Em pouco tempo, Keith tinha artificialmente se animado. Passou um bom tempo dançando desajeitado em cima do piso quadriculado da pista de dança. Ficava tonto com o piscar das luzes e com seus próprios movimentos, mas não parava. Tyler o assistia rindo, satisfeito. Houve o momento em que uma garota com longos cabelos chegou e, sem dizer nada, o agarrou. Keith respondeu ao beijo por certo tempo, mas então se neutralizou, a afastou e a encarou com o cenho cerrado. Ele correu até Tyler, se desvencilhando da multidão e, com a voz abafada pela música, gritou desesperado em seu ouvido:

—  O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?


   A noite mal começara e as ruas tinham sido tingidas por inúmeras luzes. Joe e Paige conversavam andando um pouco à frente de Ned e Heather naquela larga calçada em direção ao cinema. Joe parou perto da bilheteria, abrindo sua carteira, enquanto Paige retirava seu cardigã. Heather agarrou o braço de Ned, que bufou disfarçadamente.
   Ventava desconfortavelmente. Paige desistira de ajeitar seus cabelos. Quando Joe estava prestes a pedir os ingressos, Tyler passou por ali descendo a rua, com um Keith desacordado em seus braços. Apressado, tentou passar direto por eles, mas Joe os notou e o intercedeu:

— Tyler! O que houve com ele? — gritou.
— Ele... só passou mal e desmaiou. Eu vou levá-lo pra casa.
— SÉRIO, CARA! O QUE ACONTECEU?

   Tyler se manteve calado.

— Eu vou levá-lo pra um hospital. — Joe o tomou dos braços de Tyler.
— Tá legal! Olha... eu dei uns comprimidos pra ele. Achei que fosse ecstasy, mas... eu não sei bem o que ele tomou.
— Porra! Você é maluco? — repreendeu-o Joe, e tentou acordar Keith, sem sucesso. — Há quanto tempo ele tá apagado?
— Mais ou menos uns 10 minutos. — informou, constrangido.
— O quê? — ele se espantou. Então se virou para os outros — Eu vou pra emergência do hospital.
— Espera, eu já chamei uma ambulância. — contou Ned, prestativo.
— Valeu! Leve as garotas em casa, Ned. — Joe ouviu o som da sirene da ambulância, mais rápido do que ele pôde esperar mas não mais rápido do que ele desejara, e se apressou. Os enfermeiros saíram e, em pouco tempo, Keith estava na maca. Joe sentou ao lado de Keith no veículo e Tyler também ia entrando. — Ei! Você fica aí!
— Nem fodendo!
— Você deixou ele assim, quer fazer mais estrago?
— É o meu melhor amigo, eu cuido dele. — e Tyler ergueu-se para dentro do carro e se apertou incomodamente ao lado de Joe. Sentiam raiva um do outro, mas Tyler sentia também raiva de si mesmo por ter sido inconsequente e por saber que sempre seria. Sabia que isso só o incomodava porque havia trazido más consequências para Keith, do contrário, o problemático rapaz estaria bem sendo o estrago que é.




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