15 janeiro 2013

Youth on Papers - Capítulo 4


Capítulo 4 - Saco Cheio



   As luzes das lâmpadas se acenderam repentinamente, obrigando Keith a espremer os olhos quando despertou. Joe estava parado no batente da porta daquele quarto de hospital com os dedos no interruptor, tentando sorrir. Andou até Keith, deitado na maca, e sentou ao lado de seus pés com um suspiro. O ruivo se ajeitou e tentou acostumar os olhos à pouca luz. Espreguiçou-se.

 Já está lúcido? — Joe perguntou.
— Cara, o que aconteceu? Como eu vim parar aqui? — Keith tinha o cenho fechado.
— Você tomou alguma merda e caiu de teto, aparentemente.
— Ahn? Eu tomei...? Não. — retorquiu.
— O Tyler pôs na sua bebida.
— Ah, não! — Keith bufou, deixando a cabeça tombar para trás.
— Eu encontrei vocês, o Tyler tava te carregando pra casa. Daí eu o impedi e te trouxe pra cá numa ambulância. Nem mesmo ele sabe direito o que você tomou.
— Cadê ele?
— Tá aqui no hospital também. Por aí.
— Não deixa ele entrar aqui. Eu não quero vê-lo.
— Olha, ele fez merda... das grandes. Mas ele tá preocupado.
— Eu falo com ele depois, agora não. — ele cruzou os braços e esperou um breve silêncio — Cara, a gente só se falou umas duas ou três vezes. Por que você se preocupou em cuidar de mim?
— Porque eu já saquei o tipo do Tyler, e já saquei que você é ingênuo. Quando eu vi vocês, tive certeza de que ele tinha feito merda. Alguém tinha que te ajudar. — Joe deu de ombros.
— Valeu... cê me salvou mesmo. Ele é muito inconsequente, mas eu tava tão absorto, tão indiferente.
— Você tem que superar a morte do Christopher. Tem que acordar. Olha no que esse seu luto tá dando.
— Eu sei. — ele baixou o rosto, expirando forte — Eu tô acordando.

        

   Em passos delicados, que quase não se faziam ouvir pelos corredores ecoantes da escola, Brigitte procurava um rosto conhecido. Finalmente, no último armário do último corredor, lá estava Ned. Ela mal tinha trocado sequer uma palavra com ele, mas esperava encontrar seus outros conhecidos através dele. Eles eram os únicos naquele corredor, o que era raro naquele colégio sempre apinhado de estudantes barulhentos. Ned estava totalmente concentrado em garantir que todos os seus livros coubessem em seu armário, assim que conseguiu, e o fechou, notou a presença de Brigitte a dois passos dele.

— Você me assustou, garota!
— Foi mal! — hesitou — Você é amigo daquele garoto inglês, não é?

— O Joe? Sim, por quê?
— Você sabe onde ele e aquele pessoal que ele conhece estão? Ninguém apareceu na escola hoje.
— Você não soube, então? Bem, sabe aquele magrelo sardentinho? Ele passou mal ontem. Acho que com alguma droga ou sei lá. Então devem estar todos no hospital. — Ned encolheu os ombros.
— O Keith tá no hospital desde ontem? — ela se espantou e uniu as sobrancelhas de preocupação — Cê sabe qual hospital?
— Se eu não me engano... ah, cara, eu não lembro o nome. Vem comigo que eu tô indo lá buscar o Joe.
— Perfeito! — ela ergueu as sobrancelhas — Obrigada... hm, acho que eu não sei o seu nome.
— E eu não sei o seu. — ele desenhou um sorriso torto e ela riu enquanto saíam da escola.
  


   A porta de um dos banheiros masculinos do hospital tinha de ser empurrada com força para abrir. Tyler se esforçava para sair de lá. Quando conseguiu, tropeçou para o corredor, surpreendendo Paige e Heather, que haviam acabado de chegar. Paige deu um pequeno pulo, com o susto. Heather gritou, em seguida abriu um sorriso ao reconhecer Tyler atrás de uma cara pálida e amassada de cansaço.

— Vieram me fazer companhia? — começou Tyler, e seu rosto apático se acendeu no esgar debochado habitual — Pensei que não vinham mais.
— Você não tem mais ninguém pra deixar em coma ou algo do tipo? — disse Paige, e o sorriso presunçoso dele se desfez.
— Olha, eu tô muito mais preocupado do que vocês, tá legal?
— Pode nos levar até o Keith? Onde ele está?
— ... — Tyler as encarou — Venham.
— Ele já está bem? — Paige perguntou, aflita, quando começaram a segui-lo.
— Eu não sei. O inglesinho tá com ele agora. Mas acho que tá fora de perigo.
— O Keith é um fofo, ele tem que ficar bem. — declarou Heather — Você não teve culpa, Ty. Quer dizer, não era sua intenção, não é mesmo? — ela abraçou o braço de Tyler enquanto andavam. Paige bufou, revirando os olhos.
— Claro que não. — ele percebeu que Heather se atirava pra cima dele, tentando frustradamente ser sutil, uma vez que não tinham intimidade nenhuma. Tyler Riu por dentro, contando vitória pra si mesmo.



   No meio de um desagradável trânsito, Ned e Brigitte não tinham muito o que conversar, de modo que o ronco grave do motor prevalecia dentro do velho carro do rapaz. Do lado de fora, os sons caóticos de buzinas que se confundiam dentre gritos. Aquele garoto alto de cabelos cor de palha dirigia seu veículo, outrora de seu pai, com impaciência, apesar disso não transparecer.
   Parado em uma pequena retenção, já próximo ao hospital onde Keith se recuperava, Ned perdeu sua atenção observando figuras esbeltas que dançavam em uma escola com janelas grandes de vidro, perto dali. Na verdade, ele assistia, em particular, a uma das bailarinas; um corpo delgado, aparentemente frágil e ao mesmo tempo tão resistente e flexível, que balançava com graça e leveza. Ele esteve hipnotizado por um momento, até que foi despertado por Brigitte, quando essa percebera que o trânsito já estava livre.



   Ao passo que Joe se virara para a porta, conferindo os ruídos que Paige, Heather e Tyler faziam, Keith podia distinguir suas formas embaçadas vindo pelo corredor. Eles entraram: as meninas com um semblante preocupado, o menino hospitalizado tentou sorrir para elas com a intensidade que elas mereciam; Tyler apareceu sorrindo e Keith cobriu o rosto com as mãos, contendo uma súbita raiva.

— MAGRELO! — Tyler berrou, e ninguém quis perder tempo o repreendendo por isso — Que bom que você acordou. — ele se aproximou de Keith, que não o encarava — Olha, magrelo, eu só queria que você se soltasse e zoasse todas ontem, cê tava precisando. Eu pensei que eu soubesse o que eu tava enfiando na sua bebida ontem, só que acho que o bagulho que me passaram tava meio estragado, sabe?
Mas é normal. Também, que se foda isso tudo, porque, no fim das contas, cê tá aqui, cê tá bem, foi só um susto e o magrelo tá pronto pra outra. Não é? Eu não vou deixar treta nenhuma te foder porque eu ainda tenho que te zoar muito pra você aprender a ser homem. — Tyler, rindo, agarrou a cabeça do amigo, à força, e a puxou junto de seu quadril, em um tosca simulação de sexo oral. Keith, numa explosão de raiva, socou os testículos de Tyler, que se curvou de dor e o largou. Assim o ruivo juntou todas as suas forças para lhe dar um soco no meio do rosto, que o fez tropeçar para trás.
— VOCÊ TÁ ACHANDO ISSO ENGRAÇADO? EU NÃO SOU SEU BRINQUEDINHO, TYLER! VOCÊ NÃO PODE FAZER A MERDA QUE QUISER COMIGO E DEIXAR EU ME FODER. EU TÔ CANSADO DE VOCÊ E ESSE SEU MONTE DE BABAQUICE! VAZA DAQUI, TYLER, ME DEIXA EM PAZ! VAZA DAQUI! — Keith esgotou suas energias, o atacando aos berros, e caiu sobre seu leito, exausto. Paige correu para cuidar dele enquanto Joe abraçou Tyler para carregá-lo para fora do quarto.
— Magrelo! Keith! — Tyler, com o nariz sangrando e atônito, tentava chamar a atenção do amigo — Magrelo!
— Deixa ele agora, cara. — Joe o aconselhava — Cê fez merda, das grandes, tem que admitir, e não foi só essa. Agora dá um tempo, falou?
— TYLER!? — Brigitte gritou ao chegar no corredor e enxergar o sangue.
— Ahn... o que eu perdi aqui? — perguntou Ned, nem tão surpreso.
— Foi o Tyler que fez merda! Sempre o Tyler! — disse o próprio, manteve um tom ácido e alterado — Eu estraguei tudo, como eu sempre fiz a minha vida toda. Mas é a única coisa que eu sei fazer, tá? Só que dessa vez, eu fiz merda com o magrelo. PALMAS PARA O TYLER! Porque ele sempre fode tudo, mas fode magnificamente.


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