02 setembro 2013

Youth on Papers - Capítulo 5


Capítulo 5 - Lares




   Não havia ninguém na casa dos Madrox, para o estranhamento de Oliver, o filho único da família, visto que seus pais sempre foram alvo de suas provocações sobre a caretice deles e sobre o fato de que mal colocavam o pé para fora de sua porta de entrada. Ainda assim, Ollie — como era conhecido —, que acabara de chegar às 11 horas da manhã de uma boate do outro lado da cidade, pouco se preocupou com a rara e repentina ausência dos pais e sorriu intimamente ao se dar conta de que nenhum sermão o esperava desta vez.
   Apesar de não ter dormido à noite, Ollie não sentia sono. Então, aproveitando que estava sozinho, levou seu notebook até a sala, pousou-o na mesa de centro e se demorou alguns segundos em usá-lo. Com a língua para fora de um sorriso que não era bem um sorriso, ele despiu-se excitado e começou a se masturbar afobadamente, os olhos turquesa vidrados em um vídeo no qual duas mulheres esfregavam-se uma na outra.
   Passados apenas sete minutos, Ollie jazia estirado no sofá com o abdome melecado. Foi então que os gemidos agudos que saíam de seu computador foram vencidos pelo som nervoso da campainha. Ele desligou o áudio do aparelho e quis fingir que não estava ali, quando ouviu a voz irritada e familiar chamar seu nome seguido de uma ofensa. Vestiu sua cueca e foi atender sua visita, a identidade da qual ele já adivinhara.

— Grande Ty! — gritou Ollie antes mesmo de abrir a porta.
— Que nojo, moleque! — Tyler reclamou, virando o rosto para a barriga do amigo, pela qual escorria devagar aquele líquido viscoso.
— Entra aí, que eu vou me limpar.
— Você tava dando o cu pra quem? — brigou Tyler, entrando pelo pequeno hall para se jogar na poltrona da sala, depois de verificar se o amigo não tinha liberado alguma substância ali também.

— E aí? — disse Ollie ao voltar do banheiro, sua barriga de poucos pêlos estava relativamente limpa e ele, ainda de cueca. Estendeu a mão para cumprimentar Tyler, que apenas o encarou, como se somente um idiota fosse apertar a mão de um sujeito que há pouco dera a si mesmo um orgasmo. — Ah! Foi mal. — riu-se ao entender o porquê da recusa.
— Faz tempo que não te vejo. — começou Tyler, falando como se exigisse uma explicação.
— Meus pais tentaram me colocar num colégio interno. — Ollie sacudia levemente a cabeça, em desaprovação — Óbvio que eu fugi, mas foi mó chato a treta toda. — bufou e despencou no sofá. Esperou uma longa pausa e perguntou: — Por que cê tá sério assim?
— O Keith... — murmurou hesitante.
— Que que tem o mirradinho?
— Ele foi parar no hospital por causa de um bagulho que eu dei pra ele tomar. Tá com raiva de mim. — bufou, se espreguiçando.
— Ele sempre teve raiva de você.
— Mas dessa vez me deu um soco no saco, outro na cara e não quer me ver nunca mais.
— Você vive chamando o mirrado de viadinho, mas você é que é todo viadinho por ele. — zombou Ollie.
— Deve ser porque sem ele o único amigo que me resta é você: um fodido adotado por um casal de viadinhos. — ele piscou e foi tempo suficiente para Ollie se lançar sobre o rapaz, fazendo a velha poltrona se quebrar. Tyler segurou seus braços enraivecidos e se desculpou rapidamente entre risos, como se estivessem brincando.
— NÃO FALA DOS MEUS PAIS, SEU FILHO DA PUTA! — vociferou Oliver, a expressão de raiva mal combinava com seu rosto cândido sob os cachos dourados.
— Relaxa, cara. Eu só tô estressado... Esse lance todo do Keith.
— Uhum. Agora cê tá sozinho e veio me procurar.
— Para de viadagem.
— Eu gosto de você, Ty — lembrou Ollie, sombriamente —, mas na próxima vez que falar dos meus pais desse jeito, te faço lamber minha barriga daquele jeito cheia de porra.



   Quando sentiu o colchão de seu leito afundar ao seu lado, Keith acordou de um frágil cochilo, viu a embaçada silhueta de Brigitte sentada junto dele e notou sua mão delicada pousar em seu peito. Por um momento em que fora afagado ali, seus olhos recuperaram o foco e contemplaram o semblante quase maternal que Brigitte carregava em seu rosto perturbado. Lentamente, ele segurou a mão dela, se ergueu de modo a recostar-se na cabeceira e sorriu com as sardas iluminadas pela luz quente que irradiava pela janela dando-lhe um aspecto saudável que era pouco comum naquele rosto magro.

— Você passou a noite aqui? — perguntou ele, com a voz rouca.
— Não, eu passei a manhã com você, pro Joe ir pra casa.. — ela consultou o relógio na parede por cima do ombro — Ele já deve estar voltando pra te levar.
— Pra casa? Quanto tempo eu passei aqui?
— Menos do que parece.
— Tsc!
— O que foi?
— É que... Não é possível que eu seja tão fraco, é?
— Keith, nem todo o mundo se dá bem com qualquer droga.
— Mas eu só tomei uma merdinha minúscula, passei muito mal e tive que dormir no hospital. Aliás, nenhum médico descobriu o que foi que eu tomei, afinal?
— Sim. Foi ecstasy, mas tava zoado, tinha algumas paradas tóxicas de nome complicado que não era pra ter. Isso acontece muito, você tem que saber onde comprar.
— Humpf! Até você é mais forte do que eu, não teria parado no hospital por causa disso.
— Você que pensa. — ela fitou os joelhos com um sorriso triste sob o olhar fixo de Keith.
— Tô feliz que veio, Brigitte. — revelou Keith, quebrando o breve silêncio que tentara se instalar — Obrigado.
— Fiquei preocupada. — e com uma expressão agradável ela continuou: — Eu gosto de você, Magrelo.
— Também gosto de você. — ele mantinha um sorriso fraco — Mas posso te pedir um favor? — apertou a mão dela carinhosamente e ela fez que sim com um aceno da cabeça — Não me chama assim. — ela repetiu o aceno e se inclinou para beijar sua testa. Keith não queria ouvir este apelido pela raiva que estava sentindo de quem lhe atribuíra o tal, mas no fundo também não queria que outra pessoa o usasse que não seu amigo, Tyler.



   As portas do velho carro de Ned bateram mais estrondosamente do que de costume quando este e Joe as fecharam com força quase que ao mesmo tempo ao chegarem no hospital do qual Keith acabara de receber alta. Ned conferira se Joe iria precisar dele até que Keith estivesse pronto para sair. Logo, visto que não, ele assistiu enquanto o amigo entrou pela recepção e sumiu nos elevadores. Então, virou-se para descer a rua e atravessou uns três semáforos, chegando numa academia de dança de uma bela arquitetura antiga e grandes janelas de vidro que pareciam paredes.
   Ned reconheceu a escola que prendera sua atenção no dia anterior. Olhou ansioso através dos vidros extensos, mas não havia ninguém nas salas espelhadas. Ele subiu um pequeno lance de escadas para entrar pela grande porta e viu que existia um corredor para além de uma mesa com uma atarefada recepcionista. Demorando seu olhar ali, ele viu passar algumas moças sérias e esguias que mal olhavam os rostos umas das outras. Depois uns poucos rapazes de corpo atlético que, embora também esnobes, notaram sua presença e sorriram insinuantes para o garoto. "Me desculpe, eu posso ajudar?" perguntou a recepcionista quando o descobriu ali. Ned lhe perguntou se poderia observar os alunos dançando e, quando ela consentiu, ele se sentou em um dos bancos do corredor e pôs-se a espiar pelos largos portais das salas abertas.
   Mais um grupo de garotas magras irrompeu pelas portas do que parecia ser um vestiário e vinham seguidas por ela, a menina que parecia uma fada, de tão bela e frágil — a quem Ned, tolamente, viera procurar. Seu olhar, de inevitável, a acompanhou, e quando se encontrou com o dela, despertou a timidez da bailarina, que tornou rapidamente a olhar para a frente e fluiu para dentro de sua sala.
   Minutos depois, as dançarinas e dançarinos começaram a repetir passos, ainda que sem a presença de um instrutor. Ned, sem saber direito porque fazia aquilo, muniu-se de sua câmera fotográfica e, escondendo-a atrás de sua mochila, passou a registrar os belos e suaves movimentos da única bailarina que tentara frustradamente fazer um coque com seus cabelos curtos e quase brancos.



   A calçada onde fora estacionado o Volvo 164 no qual Keith fora resgatado, não era familiar para ele, que hesitou em sair do carro. Porém, como que por instinto, logo quis aproveitar o ar livre e se apressou em sair para junto de Joe, Ned, Brigitte e um sol exagerado que parecia ter aparecido em meio a tantos dias acinzentados somente para rever o garoto. Estavam diante de um prédio residencial que pecava na aparência e, quando passaram direto pela portaria cumprimentando um porteiro cansado, Keith se deu conta de que os seguia até o apartamento de Ned e Joe.
   Entraram no elevador estrepidante apenas Keith, Joe e Brigitte. Ao pisarem na sala desarrumada, relancearam o olhar pelos muitos pôsteres e quadros esquisitos enquanto Joe jogava uma mochila de lado se aninhando em um pufe que fora inteiramente tatuado com desenhos toscos. Brigitte se acomodou no sofá desgastado. Entrementes, Keith continuou contemplando o cômodo, começando a se perguntar o porquê de seu grande quarto na refinada casa dos Frost não ter aquele cheiro de adolescente que sentia ali, tampouco aquele ar aconchegante.
   A maçaneta girou e, com um sobressalto, Keith viu Ned aparecer na sala seguido de Paige e Heather, que estenderam os braços calorosas para abraçá-lo juntas. Trocaram cumprimentos simpáticos e, em seguida, a pequena sala estava barulhenta. Quando todos haviam se sentado sem permitir que houvesse um só segundo de silêncio, a figura magricela de Keith se destacou das outras por ser a única de pé. Ele observava o cenário no qual se encontrava com certo estranhamento, pois aquilo lhe parecia uma feliz reunião de amigos íntimos. O som confuso das vozes animadas fora cessando ao passo que seus donos notavam o garoto à parte da conversa e paravam para encará-lo interrogativamente.

— O que é tudo isso? — perguntou Keith àquele grupo de quase estranhos — O que estamos fazendo aqui? — os cinco à sua frente agora pareciam achar que ele enlouquecera — Não quero parecer ingrato, mas tipo, a gente se conheceu faz alguns dias, vocês já cuidaram de mim e agora estão aqui comemorando comigo. É isso?
— Por que é tão difícil acreditar que alguém se importa contigo? — disparou Joe, que antes jogado sobre o pufe, agora se inclinara para frente com os cotovelos apoiados nas coxas.
— Mas... — começou Keith, com um olhar surpreso — por quê?
— Amor à primeira vista. — arriscou Paige, sem realmente explicar a origem da empatia em questão.
— Olha, eu não sei se você nunca teve mais de uma pessoa ao seu lado que notasse sua existência, suas necessidades e tal, mas agora você tem. — as palavras de Brigitte saíam impacientes, porém confortantes — Então, se você gosta da gente, aceita de uma vez.
— Vocês... Eu... —  gaguejou o menino de pé, que agora se sentia ligeiramente envergonhado — Obrigado por tudo, tá? Tipo, desde a força que me deram depois do incêndio até me deixarem no hospital e principalmente isso aqui. — ele abriu os braços abrangendo toda a sala, depois se sentou no tapete a seus pés e cruzou as pernas — Eu nunca estive aqui e nem sei o sobrenome de vocês, mas eu me sinto em casa.



   O horizonte já havia engolido o sol, que há tanto não se via, quando Keith se arriscara a beber uma cerveja fraca, a qual seu estômago teimava em dar boas-vindas. À esta altura, todos os presentes tinham informado seus respectivos sobrenomes em resposta ao apelo do amigo.
   Heather, agitada, derramara um copo inteiro da cerveja particularmente fedorenta no peito de Ned, encharcando sua camisa de botões. Ele a arrancou, de cara feia e correu para seu quarto para se trocar, seguido pelos gritos de Heather "Desculpa, desculpa, desculpa..." e por ela própria.
   Paige revelara que possuía certos dotes culinários e, persuadida por Joe, se enfiou naquela cozinha confusa e precária, típica de dois rapazes, a fim de realizar algum milagre comestível.

— Eu vou te ajudar, fica tranquila. — disse Joe, aparecendo atrás dela.
— Vou precisar mesmo. — disse Paige, rindo — O que temos aqui?
— Ahn... Deixa eu ver. — Joe procurou nos armários acima do balcão — Estamos contabilizando aí uns nachos velhos, sete fatias de pão, um estoque infinito de macarrão instantâneo e um salaminho, mas esse eu uso pra acordar o Ned com um susto fingindo que é o meu...
— Essa intimidade é só de vocês, Sr. Guthrie! — ela o interrompeu e brincou chamando-o pelo sobrenome.
— Ah, desculpa. — Joe riu fracamente, se dando conta da besteira que falava.
— Olha, na geladeira temos uma caixa de leite vazia, outro salaminho, e suponho que seja do Ned, uma maçã mordida, uma caixa de bombons de vento e nem preciso mencionar as cervejas.
— Uma linda coleção, né? Ah! Olha só! — Joe avistou uma coisa de cor rosada em um canto da geladeira e estendeu o braço para apanhá-la — Uma trufa, tava guardando pra você.
— Pra mim? — Paige uniu as sobrancelhas.
— Na verdade, pra uma garota que merecesse. — ele agarrou a mão dela, depositou a trufa ali e fechou a palma da menina envolvendo sua mão na dela. Paige olhou de seus punhos abraçados a Joe e então para seu peito.
— Como adivinhou que eu prefiro chocolate à flores?
— O que é uma flor perto de você, Srta. Summers? — Ele contemplou o riso dela, que então o abraçou. Quando seu queixo deitou sobre o ombro dele, Heather irrompeu de volta pelo corredor, em passos fortes, passou direto pelo arco da cozinha e logo voltou para encontrar a amiga.
— Pelo menos você teve alguma sorte. — disparou ela, notando o abraço dos dois, que já se desfazia. Com uma expressão frustrada, ela continuou: — Joe, o seu amigo só pode ser gay, não é?
— Por que? — ele perguntou e, quase que imediatamente, ela lançou-lhe um olhar impaciente e apontou o próprio corpo — Ah, ele só não tá a fim de você. — disse a verdade, porém esta não era consoladora.
— O que tem de errado comigo? — Heather cruzou os braços de indignação.
— Você tá se oferecendo demais, amiga. — Disse Paige, em tom suplicante.
— Ai, que preguiça de bancar a difícil. — bufou ela, se jogando numa cadeira junto ao balcão.



   Deixados a sós na sala que não os era familiar, Keith e Brigitte conversavam futilmente. Ele se sentou ao lado dela no sofá com um arfar satisfeito e ela soltou um riso sem razão. Em uma pausa da conversa, Brigitte levou a garrafa da cerveja chique à boca. Porém, antes que pudesse tomar sequer um gole, Keith segurou a garrafa, arrancou-a suavemente de sua mão e pousou-a junto a seus pés. Quando levantou o rosto, viu que ela tinha uma expressão confusa e ele adotou um semblante fraternal.

— Chega. — disse ele calmamente, como se fosse um pedido.
— Por que você faz isso? — ela o encarava com a maquiagem já borrada em volta de seus grandes olhos azulados.
— Porque eu gosto das pessoas como elas são: sóbrias, sem efeito de exageros.
— É como se quisesse tomar conta de mim. — ela parecia surpresa.
— Desculpa, eu não... Não devia querer mandar no que você faz ou deixa de fazer. — ele abaixou o rosto desanimado.
— Não. Você se importa mesmo... comigo. Se importa que eu esteja me fazendo mal. — ela falava com uma voz chorosa, embora não houvesse choro. Keith a olhou com o cenho intrigado. — Você gosta mais da minha presença quando estou sóbria. — afirmou, sem precisar que ele confirmasse. Brigitte segurou, sem força, o queixo de sardas abundantes de Keith e o puxou, aproximando de seu rosto. O garoto pôde ver as olheiras cavadas naquela face delicada que se escondiam sob o corretivo. Ela o beijou e o corpo dele, de repente, ficou quente. Um ruído ao longe a fez interromper o beijo inesperado e ela encarou Keith assustada. Ele permanecia imóvel. Brigitte pareceu querer gritar, mas não emitiu som algum, então resgatou sua bolsa e disparou desajeitada e apressada pela porta, abandonando um Keith confuso porém feliz.




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