29 dezembro 2013

Youth on Papers - Capítulo 6



  Capítulo 6 - Seja Quem For





   Os pés rosados e esqueléticos de Keith desceram ao chão e, ao invés do plano maciço, encontraram um corpo esparramado em um colchonete. Naqueles instantes de falta de lucidez que se tem logo após o despertar, Keith havia esquecido que estava no bagunçado apartamento de seus novos amigos e que Joe o cedera sua cama. Agora seu anfitrião roncava aninhado ali a seus pés.
   No que pareceu um soluço, Joe abrira os olhos, os pés de Keith ainda em seu peito. O rapaz, então, espreguiçou-se e deu um tapa em uma das finas canelas de Keith, que ainda não havia notado que o amigo acordara.

— Me deixa levantar, preciso mijar! — pediu Joe.
— Ah, foi mal. — Keith timidamente retirou os pés de cima de Joe, que disparou para fora do quarto e com três passos largos e ecoantes chegou ao banheiro. O silêncio era tanto que Keith ouviu com desagrado o que lhe pareceram cinco minutos inteiros da urina sendo despejada sobre a água da privada.

— Cê vai usar o banheiro agora? — indagou Joe quando voltou ao quarto — Se não, vou tomar um banho.
— Vou, pera aí rapidinho. Tô esperando isso abaixar. — Keith apontou para uma elevação na própria calça.
— Por que cê tá de pau duro, cara? — Joe riu.
— Hm, ereção matutina, ué. To apertadaço, mas detesto mijar assim.
— Por que não faz um contorcionismo?
— Perdi o jeito. — brincou.
— Cara — começou Joe, rindo despreocupadamente —, há quanto tempo você não fode?
— Ahn... — balbuciou Keith, ligeiramente desconcertado — Há, mais ou menos, 17 anos.

   Joe ergueu as sobrancelhas, um pouco surpreso. Por fim, descontraído, brincou:

— Só isso? — Joe fez o garoto soltar um risinho. — Aposto que o Tyler pega no seu pé por causa disso, né?
— É, ele sempre tenta arranjar uma qualquer pra eu, como ele diz, "perder o cabaço". — revelou Keith, com um tom amargurado — Mas nunca descartou a possibilidade de eu ser gay, só não se conforma.
— Então você tá esperando o cara certo? — Joe tentava manter o bom humor de Keith — Por que nunca aconteceu pra você?
— Eu sou tímido, desajeitado, não sou nada atrevido e não gosto de ficar com qualquer garota, eu sou todo errado. Fica difícil conseguir uma transa assim.
— Cê não é todo errado, cara. Você é todo certo, ou quase todo.
— Então por que ainda sou virgem?
— Você vai deixar de ser virgem quando tiver que deixar.
— E isso é o certo? — Keith encarou Joe, que sabia que sua pergunta não precisava de uma resposta.
— Cê não tinha que mijar, moleque?



   Debaixo de um céu alvo e fresco, aqueles dois novos amigos bebiam café sentados em um banco de um largo arborizado enquanto esperavam Ned voltar de um laboratório fotográfico. Quando o rapaz apareceu com um maço de fotos em um envelope e não deixou que ninguém contemplasse suas obras, eles partiram a pé para a escola. Três pares de pernas magras de calças surradas moviam-se sem vontade pelas ruas quase desertas da manhã. Um semblante vivaz, um entediado e outro preguiçoso. O jovem de barba rala e sotaque inglês andava à frente e interpôs o som do vento, que era só o que se escutava até então.

— Aí, Keith, onde você mora afinal?
— No Gardens. — respondeu o magricela.
— Em Forrest Hills Gardens? — conferiu Joe, e Keith assentiu — Ah, claro, você é rico.
— Meus pais quem são.
— Por que estuda numa escola pública? — perguntou Joe — Cê fez alguma merda e te deixaram lá de castigo?
— Eu não faço merda. O Tyler faz merda e eu tô sempre junto. Eu fui expulso da minha escola de riquinho por causa dele. — esclareceu Keith.
— Isso não me surpreende. — bufou Ned, e era possivelmente a segunda vez que se dera ao trabalho de falar naquele dia.
— Mas o pessoal dessa escola é muito mais legal. — declarou o ruivo.
— Acho isso difícil de acreditar. — duvidou Joe.
— Vocês dois, por exemplo.
— Nós somos... legais?
— Mas eu nem falo, nem faço nada. — argumentou Ned.
— E tem gente que fala demais e só fala merda. — explicou Keith — As garotas também são iradas, não?
— A Paige? — disse Joe, com um sorriso.
— A Heather? — disse Ned, com o cenho cerrado.
— E a Brigitte. — disse Keith, quase que só para si mesmo.
— É, tem gente maneira lá. — concordou Joe.
— A Brigitte... — começou Keith, meio perdido em seus pensamentos — ela me beijou ontem.
— Cê pegou a Brigitte ontem?
— Não, ela me pegou. A gente tava conversando sério, aí parece que ela gostou de alguma coisa que eu fiz, então me deu um beijo, depois saiu correndo. Foi embora.
— Por que?
— Ela é meio perturbada, né? — resumiu Ned.
— Não! — Keith contestou — Quer dizer, acho que sim, mas talvez ela não quisesse ter me beijado.
— Ela quis, Keith. — afirmou Joe.
— Como você sabe?
— Se ela não quisesse, não teria feito. Só não sei porque ela se arrependeu.
— Sou tão ruim assim?
— Conversa com ela hoje, cara.
— É, aproveita que ela tá ali parada no portão da escola te encarando. — disse Ned, olhando para a calçada oposta a que estavam.

   Quando o olhar de Keith encontrou o de Brigitte, ela o encarou por alguns segundos, então deslizou para além dos portões e sumiu na multidão. Keith disparou para seguí-la e a procurou enquanto se desviava tenazmente dos muitos adolescentes aglomerados pelo pátio. Enquanto ele confundia várias garotas com sua procurada, se perguntava o motivo pelo qual ela fazia isso; fugir, se esconder, sumir, agir tão imprevisivelmente e o motivo que o levava a gostar disso. Ele já havia atravessado a multidão e agora relanceava ao redor do terreno e não encontrava nenhum sinal dela. O garoto bufou desapontado e um dedo leve tocou seu ombro.

— Procurando alguém? — Brigitte havia dispensado a maquiagem e deixara à mostra suas olheiras. Ainda assim Keith a contemplou com uma expressão boba.
— Por que você tá fugindo de mim? — perguntou Keith, ainda de olhos arregalados e extasiados.
— Eu não tô fugindo de você. É que não é fácil me pegar.
— Tá, sim! Você me beijou ontem e saiu correndo. Parecia assustada. Brigitte, eu não ligo que me roube um beijo, eu gostei.
— Eu não devia.
— Você pode me roubar quantos beijos quiser.
— Não, não posso.
— Claro que pode! Olha, não tem problema nenhum. Me deixa... — Keith avançou para beijá-la, porém Brigitte desviou-se dele.
— Para com isso! Não posso deixar você se envolver comigo. Você é bom demais. — seus grandes olhos quase escondidos debaixo de sua franja reta começaram a piscar e ficaram molhados. À medida que Keith assimilava o que acabara de ouvir, Brigitte se afastava como se flutuasse. Num único arfar do rapaz e sem se despedir, ela havia sumido.



   Uma campainha incômoda tocava anunciando o início do intervalo entre as aulas enquanto Paige andava sozinha por um corredor que fora apinhado de gente naquele único segundo. A garota foi sobressaltada quando um braço masculino deitou-se em volta de seus ombros. Quando olhou para o lado a conferir a quem pertencia aquele braço pálido, pronta para desvencilhar-se dele, teve a visão de um rosto bondoso lhe sorrindo. Joe apertou seu braço ao redor de Paige, trazendo-a para perto de seu peito e beijou o topo de sua cabeça.

— Como vai, Srta.?
— Joe, cê me assustou. — disse Paige, sorridente.
— E aí? Quer almoçar comigo?
— Bem, na falta de companhia melhor...
— Quem seria melhor do que eu?
— Me diz você.
— Você.
— Ahn?
— Você é uma ótima companhia.
— Ah, sou?
— Foi um prazer ter ficado preso no auditório com você enquanto o lugar pegava fogo.
— Não brinca com isso.
— Qualquer lugar que eu estivesse com você pegaria fogo.
— JOE! — Paige repreendeu-o, enquanto ele ria. — Quem te garante isso?
— Nós não precisamos de garantias. Vamos logo, se o almoço esfriar, aí sim, nós vamos ter que pegar fogo.

   Joe e Paige equilibraram suas bandejas com a comida até uma mesa bem no fundo do refeitório, quase não existiam mais lugares vazios. Havia apenas uma pessoa sentada àquela mesa, que não lhes dera atenção. Eles acomodaram-se ali e continuaram conversando entre risos e garfadas. Joe já havia devorado toda a sua comida quando reparou que Paige comera pouquíssimo e já largara o prato.

— Você tem anorexia, é? Só comeu o equivalente a uma jujuba e já tá cheia. — zombava Joe.
— Esse monte de comida não cabe no meu estômago, ué. — defendia-se Paige.
— Eu sou magro e como muito.
— "Eu sou magro e como muito." — Paige imitou a voz de Joe e gargalhava.
— Que foi? — Perguntou Joe, sem entender a graça.
— Seu sotaque. Ficou engraçado.
— Tsc! Você bem que gosta, Summers! — Joe tinha o braço posto nos ombros da menina, se inclinou até ela e deitou o rosto em seu pescoço e beijou-o, fazendo-lhe cócegas com a boca. Paige riu e tentou se livrar dele. De repente, ela ficou imóvel.
— Ahn... — hesitou ela — Joe? — o garoto levantou o rosto e viu que ela olhava para a frente, um tanto desconcertada. Ele olhou para a mesma direção e só então notou que durante toda a sua refeição, estavam dividindo a mesa com uma recente conhecida sua, que agora os encarava candidamente.
— Olá! — disse April, e abriu um sorriso triste.
— Eh... é... — gaguejou Joe, então olhou de April para Paige e de volta para April — Ah... oi, April. Não sabia que estudava aqui.
— Quase ninguém sabe.
— Eu não notei que era você aí.
— Normal. Essa é a sua namorada?
— Ah, não, não. Essa é a Paige. — respondeu, atrapalhado — Paige, essa é a April, nós nos esbarramos por aí umas vezes.
— Prazer, April. — cumprimentou Paige.
— Prazer. Posso fotografar vocês?
— Ela... gosta de tirar fotos das... coisas. — explicou Joe.
— Ahn, pode. — permitiu Paige, e esperou enquanto a garota arrancava uma câmera instantânea de sua bolsa velha. Deu um sorriso tímido quando April apontou-lhe a máquina, que segundos depois cuspiu uma fotografia. A menina guardou ambas a câmera e a foto e levantou-se.
— Obrigado! Eu vou indo agora, adeus! — despediu-se April.
— Tchau! Não há de quê. — disse Paige.
— A gente se vê. — disse Joe.



   Sem conseguir focar sua atenção em sua última aula do dia, Keith somente indagava-se sobre o que acontecia com Brigitte que a fazia agir do jeito que age. Imerso em tanta inocência, ele não possuía nem a menor das pistas. Ansiava sair dali e ir novamente à procura da bela esquisita que o intrigava.
   O tempo real decorrido parecia ter sido dobrado, mas enfim aquela aula terminara. O rapaz pendurou sua mochila quase vazia no ombro e, antes que pudesse disparar para o corredor, alguém o socou por trás não tão gentilmente quanto almejava. Oliver, coberto com um imenso sorriso besta, estivera na mesma classe que o colega todo o tempo e Keith então descobriu quem era que o atirava minúsculas bolinhas de papel durante a aula.

— Voltei pra escola! — revelou Oliver.
— Onde você tava? — perguntou Keith.
— Longa história. Olha só, vem comigo. — ele se dirigia à porta, esperando que Keith o seguisse.
— Pra onde?
— Eu quero te mostrar uma coisa. — Oliver conseguia sorrir com os olhos, de modo que parecia estar sempre com um sorriso idiota. Keith o seguiu sem vontade por alguns corredores enquanto Oliver contava suas desventuras e as tentativas disciplinantes que seus pais frustradamente o aplicavam. Pararam em frente a uma sala de aula aparentemente vazia. — O Ty deve tá aí. A aula já acabou, mas ele ia me esperar.
— Não tô a fim de ver o Tyler.
— Cês precisam se falar, cara.
— Tô indo embora, falou?
— Ô Mirradinho! É sério! O moleque tá mal. Ele sabe que fez merda.
— Eu não quero as desculp... — Keith deixou a frase se perder e concentrou-se no que via pelo pequeno vidro da porta a frente da qual estavam discutindo — É a.... é a Brigitte!?
— Quem é Brigitte?

   Ignorando a pergunta do colega, Keith girou a maçaneta da porta, quase eufórico e relanceou o olhar pela sala, feliz em encontrar a garota conturbada. Então, como uma drástica mudança climática, seus olhos que faiscavam tornaram-se cinzentos, seu leve sorriso murchou-se sem vida, sua rasa alegria e vontade de viver esvaíram-se por um segundo e ele foi inundado ao mesmo tempo por uma gélida tristeza e um ardente ódio. Lutou involuntariamente para desfocar o que seus olhos haviam focado e para apagar da memória o que havia registrado tão abrupta e inesperadamente. Keith tinha razões para acreditar que estava maravilhosamente apaixonado por Brigitte, tinha também motivos para estar com raiva de Tyler e profundos sentimentos para perdoá-lo. Sentiu tudo isso esvair-se como se uma simples visão tivesse causado um tsunami em seu corpo. A sala estava quase vazia, a não ser por Brigitte deitada sobre a mesa do professor, praticamente nua, e Tyler de calças abaixadas inclinado sobre ela, ofegante, ambos com as expressões mais sutilmente assustadas que alguém poderia esboçar.
   Os lábios da menina tremeram para pronunciar o nome de Keith. Tyler deslizava lentamente de perto de Brigitte. Keith abriu um esgar enraivecido, fechou os punhos e parecia pronto para matar alguém aos socos, mas ao invés disso, sumiu de vista como um relâmpago, batendo a porta com toda a força que possuía.



   No final da tarde, Paige estava em seu quarto alaranjado pelo crepúsculo. Terminou suas tarefas e deitou-se bufando de cansaço na cama, cuja cabeceira era enfeitada com vinhas artificiais. Quando pensou que poderia descansar corpo e mente, sua enérgica vizinha entrou tempestuosamente escancarando a porta.

— Me diz que merda é essa, Paige? — gritou Heather, histérica.
— O quê? — Paige se apoiou nos ombros e franziu a testa.
— Você não recebeu uma carta desta? — ela sacudia um envelope timbrado — Todos devem ter recebido.
— Não sei.
— Olha a minha e vê se consegue acreditar no que tá lendo. — Heather a entregou a carta e sentou-se ao lado da amiga. Se tratava de uma carta enviada pela escola que frequentam, onde ocorrera o incêndio que presenciaram, mas além da diretoria, a carta era timbrada também pela polícia. Paige lia o texto e à cada parágrafo seu cenho se fechava mais. — A esquisita tava certa! Eles querem nos ferrar.
— Não bem é isso, Heather. — disse, ao acabar a leitura e tentar assimilar as informações.
— Claro que é, você n...
— Não ainda. — acrescentou, interrompendo a amiga exaltada — Eles não estão nos acusando. Só querem nos interrogar.
— Porque desconfiam de nós.
— Nós fomos os únicos que estavam lá, óbvio que terão que nos interrogar diante dessas evidências.
— Que aliás eles não dizem quais são. Vamos dizer a verdade, né? Que foi a bebida do Joe e o cigarro do Tyler e o menino tava desmaiado e não sabemos porquê e tudo foi um acidente.
— Heather, você não tá entendendo, a questão aqui vai além disso. A gente tava preocupado com essas idiotices de adolescente, mas aqui diz que, de alguma forma que não entendo, o fogo colossal, que achamos que magicamente tinha começado com aquela fogueirinha no palco, foi intencional. Foi planejado. Alguém queria que aquele lugar queimasse. Talvez com todos os alunos lá dentro ou só a gente ou só...

Um comentário:

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