02 julho 2014

Youth on Papers - Capítulo 7




Capítulo 7 — Ângulos





— Segundo os relatos de todos vocês, o incêndio descomunal que destruiu o auditório foi causado por um pouco de bebida alcoólica e a mínima brasa de um cigarro, que nem preciso mencionar que não deveriam estar dentro dos domínios de uma escola de ensino médio. — o detetive Dennis Harper discursava para cinco dos seis jovens suspeitos do incêndio do Forest High — Portanto, eu seria forçado a acreditar que foi um acidente, um descuido estúpido e uma tremenda falta de responsabilidade que culminou na morte de um jovem com muita falta de sorte, que estava desmaiado na platéia o tempo todo. Mas a culpa... ainda seria de quem trouxe e/ou consumiu o álcool e os cigarros, estritamente proibidos pela política de qualquer colégio.

— E de quem nos trancou lá sem antes verificar se todos já tinham saído. — completou Tyler.
— Será que não verificou mesmo? Será que sete alunos não acharam que seria divertido se esconder lá e dar uma pequena desta virando a noite na escola? Ou será que seis alunos resolveram pregar uma peça naquele rapaz que acabou indo longe demais?
— Isso é um absurdo! — protestou Heather, assustada.
–– Nós nem nos conhecíamos. — argumentou Paige.
— Tenho fortes razões para acreditar que aquele incêndio foi causado por algo muito maior do que um pingo de vodka e uma brasa de cigarro. Isso me faz imaginar que tipo de brincadeira perigosa e de mal gosto alguém poderia ter inventado naquele dia.
— Por que eu me trancaria com seis desconhecidos pra zoar um deles e incendiar todos nós juntos? — indagou Joe, como se argumentasse com um idiota.
— É o que pretendo descobrir, Sr. Guthrie.
— Olha, nós já contamos a história verdadeira inteira, por mais absurda que pareça, mas se algum se escondeu e colocou mais fogo onde já tinha uma fogueira, não é culpa nossa. — explicou Paige.
— Existe algum motivo para alguém os querer mortos? — perguntou Harper, e todos responderam negativamente.
— Não pode ser o caso. Nós ficamos presos por acaso, não tinha como adivinharem quem seriam os lerdos a ficar pra trás quando acabasse a palestra. — opinou Joe.
— Talvez quisessem matar alguém e nós ficamos no caminho. — palpitou Tyler.
— Talvez quisessem matar o Christopher e nós ficamos no caminho. — arriscou Brigitte, com uma súbita pulsação a mais em seu peito.
— Faz sentido. — concordou Paige — Ele estava desmaiado lá. Nós estávamos lá por acidente, mas talvez ele não.
— Foi de propósito que ninguém checou o lugar antes de trancar. — disse Tyler, categórico, rodeado pelos olhares epifanizados dos colegas.
— Muito conveniente a solução que vocês encontraram pra livrar as próprias caras, mas a historinha do álcool e da brasa ainda me parece muito com homicídio culposo. — provocou Harper, carregando uma expressão séria que parecia um sorriso de desdém.
— Você só quer alguém pra culpar, né? — revoltou-se Tyler — Adolescente faz merda por aí todo dia, mas aquilo foi um acidente!
— Você é um deles, não? Faz merda por aí todos os dias, não é? É um rebelde sem causa, um pivete delinquente que se acha grande. Quantas vezes foi o valentão? Quantas vezes influenciou garotos tranquilos a ser plateia para suas zoações? Quantas vezes essas gracinhas resultaram na morte de alguém? — Harper o encarava sem piscar.
— Eu nunca fui um babaca que diminui os outros pra parecer legal! PORQUE EU TÔ POUCO ME FODENDO PRO QUE QUALQUER UM PENSA! Se você acha que me entende, que entende qualquer adolescente julgando pelas primeiras impressões, você não entende MERDA NENHUMA! Pode achar que meu lugar é no reformatório, mas não vai conseguir me ver lá, porque nem eu, nem nenhum deles cometeu crime algum. Só o que vai conseguir nos dar é uma detenção escolar. — Tyler estava de pé a centímetros do detetive, sua saliva espirrando no esgar raivoso do homem, o deu as costas e bateu a porta ao sair.
— Você não pode vir aqui e nos acusar de homicídio assim. — disse Joe com a voz carregada de raiva, e saiu pesadamente. Os outros, então, começaram a retirar-se da sala da diretoria, emprestada para um interrogatório não-oficial.
— Está faltando um de vocês! Avise o espertinho que não pode fugir de mim! — gritou Harper de dentro da sala, e eles puderam ouvir a mesa do diretor saltar com o soco que recebera.

   Naquele corredor, que agora parecia tão opressor, os cinco jovens andavam dispersos, com a cabeça prestes a explodir e um novo pensamente aflorara com a última ordem do detetive.


— Alguém sabe do Keith? — perguntou Joe, alarmando os outros. Tyler, mais à frente, fez ecoar o rangido agudo de seus coturnos ao frear de supetão. Brigitte, na extremidade oposta do corredor, engoliu em seco com um audível baque surdo.




   As folhas da árvore velha sob a qual deitara, caíam em sua cabeça, Keith não se dera o trabalho de retirá-las, tampouco o vento fraco que mal soprava naquela praça de gramado extenso. Haviam umas três folhas secas presas nos cachos do rapaz, que parecia estar imóvel há horas. Ele bocejava, tirando os músculos do rosto da inércia, quando a primeira folha foi retirada por mãos estranhas e leves, que sobressaltaram-no.


— Desculpe, tem muitas folhas.... no seu cabelo. — apontou April, um tanto assustada. Keith a encarou quieto. — Eu... com licença. — ela se afastou exasperada, enquanto o garoto a observava, com as sobrancelhas unidas.


   Keith sentou-se com os braços laçados aos joelhos e assistia involuntariamente os passos da menina. O jeito tímido e ao mesmo tempo desinibido daquele andar saltado que a fazia flutuar. Ele não admirou a garota com qualquer interesse romântico ou desejo sexual, simplesmente observou, já que tivera a curiosidade desperta pela solicitude e intromissão da jovem. Viu quando ela sentou-se em seu lençol estendido na grama lisa e pôs-se a rabiscar um livro pesado e gasto. Ao notar aquela aura de tímida excentricidade que ela emanava, ele recordou-se de Brigitte e a angústia fez-se sabor em seus lábios. Keith começou a perguntar-se o porquê de ter se interessado e se deixado envolver por uma esquisita como Brigitte e não uma tão calma e cheia de paz como a que acabara de mexer em seu cabelo. Por que não sentia nada por ela? Por que aquela criatura delgada que ele nunca vira na vida parecia ter muito mais em comum com ele do que aquela que o beijara poucos dias atrás? Será que era da instabilidade da problemática Brigitte que ele gostava? Era esse o seu estilo? Enfim, não importava mais, estava decidido, jamais ficaria com ela depois do que havia flagrado. Precisava e merecia contentar-se com o que estava ao seu alcance.


   Seus pés moviam-se quase que por vontade própria, fazendo Keith andar por força do costume. Sem saber ao certo aonde pretendia chegar, após muitos passos cansados, ele começou a reconhecer a paisagem e viu-se na rua arborizada e cheirosa na qual morava. Não tinha vontade alguma de ficar em casa, mas precisava urgentemente de sua cama. O menino apressou o passo, tomando cuidado para não escorregar nas folhas molhadas e no limo da calçada. Sua casa era uma das poucas naquela rua que era cercada por um muro, que nunca impediu Tyler de entrar. Havia uma entrada bem decorada e ornamentada onde ficava o portão, e foi lá que Keith tomara um susto quando deparou-se com uma das últimas pessoas que queria encontrar naquele dia.


— KEITH? — alarmou-se Brigitte.

— Vai... embora. — seus dentes trincaram-se.
— Eu te devo....
— Você não me deve nada!
— Eu não vim me desculpar, Keith. — o meio-tom que a voz dela ganhara fez o garoto parar de resistir por um segundo — Eu não mereço, e sei que você não vai me desculpar.
— Me diz por que então. Você sabe que eu sou um fracote. Por que me deixa gostar de você pra me fazer passar por isso?
— Eu não... quis. — Brigitte parecia assustadoramente confusa e seus olhos avermelhados umedeceram-se — Eu te disse, não podia deixar que fosse legal comigo. Porque eu sou assim.
— Assim?
— Tudo o que toco... vira merda. Eu sou errada, de todos os jeitos. Sempre que algo pode dar certo, eu estrago. Já sei que faço as piores escolhas e que não sei fazer o certo, e dessa vez eu não me controlei como devia. Não devia ter te beijado, eu te admirei, mas devia ter lembrado que você é tudo o que não mereço. Você é bom demais, e o Tyler... é o tipo dele que eu mereço. Eu não valho nada, tenho mil problemas comigo mesma e estrago a vida de todo o mundo. O problema não é com você.
— Ninguém nasce da merda, Brigitte. — Keith mal aguentava o tom da própria voz, que parecia chorosa com os falsetes do rapaz, mas carregada de impaciência — Você é assim porque você quer ser assim. Será que não percebe o paradoxo que você é? Você só tá se vitimizando. Você gosta do que faz e você tem plena consciência do que faz! É tão fácil se fazer de vítima, pondo a culpa nos seus problemas, dizendo que você não presta. Fazer o quê? Você simplesmente nasceu desse jeito. Quer mesmo que eu acredite nisso? Aliás, você acredita nisso? Já parou pra pensar que se você desse algum valor a si mesma e parasse de fazer merda, você não estaria aqui agora chorando pra mim? — ele esperou uma resposta que sabia que não receberia, então pôs a chave na fechadura do portão e ao entrar, olhou para trás, para uma Brigitte aparentemente arrasada, de cabeça baixa e acrescentou — Não é o que você acha que é, que define quem você é.




   A manhã havia se arrastado por longas horas, mas enfim entardecera. As ruas refletiam um amarelo invisível, que dançava também na copa das poucas árvores que Heather conseguia avistar. A menina entrava em um shopping como já tanto fizera na vida razoavelmente fútil que levava. Estava sozinha, mas não se importava de fazer compras ou flertar sem companhia. Ela andou por inúmeras lojas, nas quais os vendedores inclusive já a conheciam. Experimentou roupas, maquiagens, perfumes e champagne de cortesia. Quebrou uma boneca de porcelana acidentalmente e fugiu devagar e calma do local.

   Já cansada e preparando-se para ir embora, Heather estava de volta ao térreo do shopping em direção à saída, quando passou por uma livraria e, pela vitrine, enxergou Harper na sessão de livros de Direito. Ela não pensou muito e entrou na livraria. Agarrou qualquer livro do balcão de lançamentos e sentou-se numa mesa à vista de Harper. Não demorou muito e ele a notou quando passava a sua frente. O detetive franziu levemente o cenho ao encará-la numa rápida tentativa de reconhecimento e, então, acenou com a cabeça para ela e voltou a procurar por títulos nas estantes. Heather continuava ali fingindo que lia aquele romance que ela julgou estúpido pela sinopse e sem saber exatamente o que pretendia. Enquanto o espiava por trás do livro, ela concluiu que seus espertos instintos a mandaram ali para que criasse uma amizade com Harper, e assim livrar a si mesma e a seus colegas de suas acusações. Heather sorriu ao entender seu plano e manteve o sorriso ao chamar:

— Harper! — ela esperou-o dar-se conta de que estava sendo chamado e caminhar até sua mesa aturdido.
— É detetive Harper pra você, moça. — corrigiu-a ríspido.
— Ah! Por favor! Estamos em horário de lazer.
— Mas ainda assim est...
— Por que não se senta e toma um café comigo? — sugeriu Heather, interrompendo-o.
— Porque eu sou o detetive que suspeita que você e seus amigos cometeram um crime.
— Mas nas horas vagas você é só mais um cara que gosta de livros e que pode ser uma boa companhia pra mim hoje.
— O que você tá querendo, garota?
— Sente-se logo. Por que não finge que não me conhece e eu finjo que nunca me acusou de nada?  Heather tentava hipnotizá-lo com um sorriso incitante e ao mesmo tempo inocente. Ele demorou-se de pé em frente à ela e, por fim, sentou-se.
— E eu finjo que você nunca cometeu nenhum crime.
— Aí então você não estaria fingindo. Só finja que não suspeita. Então, eu me chamo Heather, e você?
— Para com isso. É ridículo.
— Eu não acho.
— Eu sei quem você é, sei o tipo de garota que é. Já te conheço.
— Tem certeza que você me conhece? Há quanto tempo tem nos observado? Que tipo de garota eu sou?
— Não faz muito tempo, mas vocês são tão óbvios.
— Você presumiu que somos óbvios.
— Quer dizer que estão me fazendo pensar o que querem que eu pense?
— Eu não quero que pense nada. Só não pense que me conhece. Você não se deu a chance. — os lábios molhados de Heather reluziam enquanto ela esperava uma resposta de Harper, que parecia analisar minuciosamente a postura da garota.
— Tudo bem. Eu sou Dennis Harper. Você vem sempre aqui?
— Argh! Mas que cantada é essa? — desdenhou Heather.

— Eu não estou te cantando.
— E por que não?
— ... — Harper hesitou.
— Você é comprometido?
— Não.
— É hétero?
— Sim.
— Me acha atraente?
— Eu não vou dar em cima de uma adolescente menor de idade que está bem perto de se tornar uma pessoa de interesse do provável assassinato de outro menor, um caso que aliás eu sou encarregado da investigação.
— Você me acha atraente. — ela sorriu vitoriosa.
— Essas atitudes só reforçam o que eu já havia deduzido sobre você.
— E as suas atitudes só demonstram que o curso de direito te deixou mais rabugento e fechado. Cê precisa muito se soltar e parar com essa mania de bater na mesma tecla sem parar. Me diz quando foi a última vez que você saiu com os amigos. — ela esperou e ele a encarou quieto — Ah, não! Não me diga que seus amigos também tão mergulhados no trabalho, viajando ou esqueceram de viver? Se bem que eu não me surpreenderia. Quando foi a última vez que riu até sua barriga doer?
— Eu não sou uma criança.
— Você é impossível! — ela riu — Quantos anos tem?
— Vinte e oito.
— Parece que tem o triplo. Você é um cara bonito e jovem, mas não consegue lembrar o que é diversão. Isso não é saudável. Esquece por um segundo daquela investigação e tenta se divertir comigo, eu sou muito divertida, juro que não tenho segundas intenções quanto aquele processo.
— Você não vai desistir, não é? Tá, mas por que tá sendo tão gentil depois de eu ter gritado tanto com vocês hoje?
— Sinceramente, eu tenho a consciência limpa e eu gosto de cara que se impõe. Meu pai nunca foi de brigar comigo, sabe?!
— E eu aprendi com o meu.
— Dá pra imaginar.
— Como assim?
— É que... você parece um cara que até gosta de direito, mas entrou na faculdade por causa do pai, aquela típica história, sabe? É tão fechado, sério e determinado... porque ele te fez assim. É por causa disso tudo que... parece tão angustiado.
— É isso que acha de mim?  ele baixara o rosto, ligeiramente encabulado  Acho que você acertou tudo.
— Desculpe.
— Não precisa se desculpar.
— Sabia que... — começou Heather, cautelosa — você ainda pode se divertir? Pode se permitir ao que quiser. Aprender a rir, sei lá. Já é dono do próprio nariz, né?
— Eu sei disso, mas...
— Vem comigo. — Heather levantou-se e pendurava sua bolsa no ombro, apressada — Hoje você vai ver o que é diversão.
— Onde você tá indo? — Harper, hesitante, levantava-se.
— Vou te apresentar Nova York. — ela abraçou o braço dele enquanto andavam, e ele uniu as sobrancelhas com tanta força que doera — Fala sério, você é muito tenso. Me diz, qual foi a última vez que você fez sexo de verdade, hein?
— O QUÊ?



   A luz vermelha dominante naquela pequena sala começava a fatigar a visão de Phoebe. Acabara de mergulhar o último papel fotográfico no líquido para revelar as fotografias encomendadas e limpava as mãos em seu avental frouxo. Phoebe encostou-se numa bancada e contemplou fotografias de outra encomenda já penduradas no varal que mal deixava espaço ali para a garota. Ela preocupava-se com a própria eficiência, era a primeira vez que trabalhava dentro do laboratório revelando negativos. Seu turno naquele estúdio estava quase no fim, ela já estava cansada, devido à prática do exaustivo balé. Fora um longo dia, porém não haviam pensamentos que estressassem Phoebe no momento. Então, como se gritasse por atenção, uma das fotografias no líquido brilhou para a garota. Não estava completamente pronta, mas ostentava figuras bem familiares. Phoebe começou a identificar os elementos na imagem, parecia uma linda fotografia, havia uma grande sala, um chão de madeira, pessoas em segundo plano trajando roupas parecidas,  ao centro, uma moça em uma posição estranha, mas que foi rapidamente reconhecido: era um movimento de balé, aquela era uma sala com bailarinas. Em sincronia com a conclusão da menina, a fotografia se revelou por completo, exibindo a figura completa de Phoebe, que soluçou com o susto.

   A menina relanceou sobre as outras fotografias, algumas muito borradas e outras mostravam a mesma protagonista, ela mesma. Assustada, sentia seu coração acelerar e tentava impedir, mas continuava a encarar a si mesma nas fotos, das quais desconhecia completamente a procedência. Nutrindo milhares de dúvidas e paranoias na mente, Phoebe esperou até que estivessem reveladas e secas todas as fotografias e tremia enquanto conferia todas elas. Correu até o envelope dos negativos e leu a ficha com o nome de quem encomendara a revelação. O envelope dizia "Ned Maximoff" e a garota não fazia a menor ideia de quem fosse o possível perseguidor. Ela recolheu as fotos e foi até a recepcionista, mostrou o material espantada. A moça deslumbrou-se com a beleza do trabalho e não preocupou-se tanto. Phoebe preparava-se para debater os possíveis perigos da situação, quando o sino da porta soou tomando sua atenção para um rapaz que adentrava o recinto. De cabelos cor de palha e estatura alta, até então não era nenhum rosto familiar, mas ela sabia que aquele poderia ser o dono das fotografias que ela segurava com imensa apreensão. Nervosa, a garota notou que ele andava com o rosto abaixado, mexendo em sua carteira, e não olhou para ninguém ali. Até que o rapaz parou em frente à mesa da recepção e levantou o rosto para a recepcionista, em seguida, virou para Phoebe e congelou, encarando-a com uma expressão petrificada e sublime. O coração da menina deu um salto e acelerou, o olhar admirado dele a deu certeza de que estava diante de Ned Maximoff.


— Ned Maximoff, né? — perguntou a recepcionista.

— Sim. — confirmou Ned, atônito.
— Eu... — começou Phoebe — revelei as suas fotos. — estendeu o envelope para o garoto.
— Obrig... — hesitou ele, encostando no pacote. Phoebe não soltara. — Desculpe.
— Por que só tem fotos de mim aqui?
— Bem — Ned corou —, desde que te vi naquela escola de balé...
— Você me segue? — ela tinha urgência na voz.
— Não! — esclareceu ele — Foi por acaso. Não consigo fotografar mais nada, eu só... te admiro.
— Você tá me assustando.
— Calma! Não foi por mal. Eu não sou um maníaco, um perseguidor, ou...
— Se não se importa, sei que pagou, mas eu vou ficar com isso. — Phoebe puxou o envelope para si.
— Deixa eu me explicar.
— Já estamos fechando. — ela tremia imperceptivelmente, encarando-o com firmeza até que impeliu-o a partir. Ned baixou o rosto, decepcionado e andou até a porta. Do lado de fora, deu um último relance de olhos para Phoebe, com uma expressão martirizada que diminuíra um tanto do medo que revolvia cada poro da garota.




   Sem saber o motivo de deixar-se ser guiado por uma menina de quase 17 anos por cantos da cidade que ele jamais imaginara existir, Harper já havia sido arrastado por inúmeros pontos de encontro de jovens, como entradas de boates e bares, nos quais não entraram, pois segundo Heather, o pessoal de fora era mais divertido e diversão tinha custo mais baixo. Ela havia vestido o paletó dele, arrancado sua camisa para fora da calça, jogado fora sua gravata e despenteado seu cabelo. Num estacionamento, onde quase somente enxergava-se copos e garrafas fluorescentes que dava à bebida um aspecto radioativo, eles chegaram perto da ebriedade e assim o detetive esqueceu que movia um processo contra a linda garota que ria formidavelmente a sua frente. Parecera, para ele, que tinha voltado a ser criança por breve momento, um breve suspiro, que ele tinha permissão para fazer o que quisesse. Harper passou o resto da noite à disposição de Heather, não pôde dar nenhum palpite sobre onde ir ou o que fazer. Ela estava no comando, enquanto que ele sentia-se impotente e dominado, como ninguém além de seu pai o fizera sentir antes, entretanto não tinha vontade de lutar contra ela.

— DENNIS! — gritou Heather, agarrando suas mãos — Eu vou te chamar pelo primeiro nome, goste você ou não. Seu nome rima com pênis. — eles riram.

— Desde quando ficamos tão íntimos?
— Faz algumas horas.
— O que a gente vai fazer agora?
— Eu já cansei da rua. Onde você mora?
— Vamos pra casa já?
— Tem muita coisa legal pra fazer em casa, tá? Você que não sabe. — Heather fez uma careta.
— Tá, eu moro... — Dennis parou, confuso — Ih, onde tá meu carro mesmo?
— VOCÊ TÁ BÊBADO! — gritou Heather, e teve um acesso de riso — Não pode dirigir.
— Vamos... de táxi?

   O taxista exageradamente risonho, que parecia divertir-se com a ebriedade de seus passageiros, deixou-os em frente a um condomínio de aparência isoladora e gélida. O casal passou, aos risos e tropeços, pelos portões altíssimos e por um porteiro mal-encarado. Entraram no elevador onde Dennis, desajeitado, apertou vários botões até que acertasse o de seu andar. Heather escorava-se nele, agarrada em seu braço. Chegaram no apartamento de decoração minimalista do detetive, Heather não pôde deixar de perceber que nunca estivera em um lugar tão pouco acolhedor. Sem deixar levar-se pela vibração depressiva que aquela sala passava, ela agitou-se novamente e correu para uma grande e esquisita poltrona junto à janela, que tomava a parede inteira, arrastando Dennis pelo braço. Obrigou-o a sentar e postou-se de pé diante dele. Heather relanceou através da janela, estavam num andar bem alto, não via-se outras janelas dali, somente a cidade. Dennis tinha os olhos vidrados nela, que começou a dançar sem música nenhuma. Tirou o paletó enquanto balançava os quadris num ritmo que apenas eles dois podiam reconhecer. Como se a cidade fosse uma plateia, Heather continuou dançando até que estava completamente nua, alcançou as mãos de Dennis e encostou-as ao próprio corpo, fazendo-o deslizá-las ao longo de suas curvas, sua barriga firme de cor negra contrastando aquelas mãos masculinas de um branco esverdeado. Sentou-se no colo dele e o beijou demoradamente. A poltrona girou, deixando-os de frente para a janela. A ansiedade crescia em ambos ao passo que Heather despia Dennis em velocidade crescente. O detetive agia hesitantemente, com medo, deixando a garota conduzi-lo. O tempo passava sem que percebessem, e quando a primeira gota de chuva começou a chicotear a grande parede de vidro que refletia seus corpos despidos entrelaçados, eles estavam ofegantes e satisfeitos, aninhados um no outro.


   O sol não aparecera na manhã para acender a fria sala de Dennis. Algo fazia o rosto de Heather coçar. Ela levantou a cabeça do peito de Dennis e viu-se no carpete da sala, trajando apenas suas roupas íntimas. Puxou um pelo do peito do seu anfitrião, acordando-o. Afagou seu cabelo, enquanto ele apertava os olhos para enxergá-la contra a pouca luz das janelas.


— Se divertiu ontem? — a voz doce de Heather saiu um tanto rouca.
— É... Pelo visto, sim. — respondeu Dennis, com a voz mais rouca ainda.
— Que bom. Espero que tenha aprendido.
— Eu não sei se devia ter feito metade das coisas que...
— Cala a boca! — interrompeu.
— Você manda. — ele soltou um riso.
— Meu Deus! Um riso sóbrio. — brincou Heather.
— Você é divertida.
— Você acha? Então... você não vai continuar a mover o processo contra mim ou os outros, né?
— Ahn? Nossa! Eu tinha até me esquecido. — Dennis levou as mãos ao rosto. — Era isso, então? Isso tudo foi pra eu não acusar vocês?
— Não!
— Argh! Não acredito. — ele levantou e pôs as mãos na cintura, bufando.
— Quer parar? Na real, eu achei que você só não enxergava o nosso lado porque nunca teve o tanto de diversão que eu te dei ontem. Eu quis te ajudar, ajudando a mim mesma. Mas acho que você não consegue enxergar de nenhum outro jeito, né?
— Você me manipulou, Heather. Isso só me prova o que eu já achava, qual é o tipo de vocês.
— Você é um cego idiota! Mas quer saber? Tanto faz o que você pensa agora. Porque você tem quase trinta anos e eu sou menor de idade. — ela parou dramaticamente e abriu um sorriso presunçoso — E você me comeu. Me embebedou e me comeu. Transou com uma de suas acusadas. Ah, você não devia, Detetive Harper. — Heather recolheu suas roupas e irrompeu porta afora teatralmente, enquanto Dennis segurava sua cueca, paralisado naquele cenário melancólico.







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