25 julho 2014

Youth on Papers - Capítulo 8




Capítulo 8 — Massa de Modelar 






   A baixa umidade do ar fazia o nariz de Tyler arder e corar-se, conferindo-lhe um aspecto doente em contraste com aquele rosto pálido. O rapaz nem se atrevera a acender um cigarro sequer, porém ele próprio exalava o odor desagradável que atiçava o seu vício. Caminhava por uma rua particularmente feia, de pequenos jardins mal cuidados e casas de aparência deteriorada. Quando virou a esquina, derrapando em seu passo apressado e um tanto irritado, avistou sua casa. Como odiava aquele lugar. Vivia ali com sua mãe, que ele amava, mas com a qual nunca se entendia e somente conversava entre farpas. Ela nunca compreendera o seu jeito, assim como ninguém também nunca o fizera.

   Tyler virou o rosto quando uma sopro congelante brisou contra ele e fez as folhas rodopiarem ao redor de seus pés. Ao olhar de volta para sua frente, já diante de seu prédio, ele assustou-se com o corpo contorcido que jazia estirado na pequena escada. Tyler reconheceu o amigo, Oliver, chutou levemente o rapaz, que grunhiu em resposta. Ele abaixou-se, impaciente, e sentiu como se Ollie tivesse mergulhado em puro álcool. Gritou para que acordasse, balançando seu corpo, sem nenhuma resposta ávida. Levantou o menino do chão e notou que havia vômito escorrendo por um degrau. Arrastou o colega para dentro até sua casa, sem preocupar-se em não machucá-lo, e enfiou-o no chuveiro, ainda vestido. Abriu o registro, a água fria despencou sobre o rapaz, que demorou alguns segundos para demonstrar qualquer reação. Logo, Ollie despertou assustado em um suspiro exacerbado. Confuso, tentou erguer-se da banheira escorregadia, sem sucesso. Tyler o continha, tentando impacientemente acalmá-lo.

   Um cobertor velho e fedido envolvia Tyler, no carpete aos pés de sua cama, diante de uma televisão chiada, que prendia sua atenção, sem que ele soubesse realmente o porquê. Ollie apareceu na porta do quarto, com uma toalha enrolada na cintura, os braços unidos em frente ao corpo curvado e trêmulo, os dentes trincados.

— Ty! — chamou Oliver, com a voz fraca.
— E aí, alcoólatra? — respondeu sem tirar os olhos da televisão.
— Me arranja um pedaço desse cobertor aí. — ele se aproximou, entrando no campo de visão do amigo.
— Entra. — Tyler estendeu um braço, esticando o cobertor, sob o qual Oliver aninhou-se. O hóspede encarou a televisão por alguns minutos, calado, até sua temperatura normalizar.
— Cê me empresta umas roupas?  — fungou.
— Pode pegar. — fungou também, como se imitasse o colega — Mas conta, que que cê tava fazendo desmaiado na minha porta?
— Ah! Eu bebi demais.
— Isso eu vi. Tava comemorando o quê?
— Nada, era... era mais pra lamentação.
— Afogando as mágoas?
— É, pode ser.
— Não vai dizer o que é?
— Tanto faz.
— Cê tá me roubando o cobertor todo aos poucos.
— Eu tô quase pelado, pô! — disse, puxando todo o cobertor para si de uma vez.



   A praça que Ned tantas vezes atravessara a caminho de revelar seus filmes fotográficos, parecia feder. O garoto nunca havia realmente notado o odor daquele lugar, uma vez que raramente demorava-se parado por ali. Porém hoje não estava lá a fim de revelar filme algum, mas esperava a funcionária do laboratório, que ontem mesmo vira a própria imagem surgir nas fotografias, as quais nunca pôde consentir que fossem produzidas. "Quais são as chances?" Ned pensou, lamentando-se. Pelo menos agora teriam um iniciador de conversa. Ele apenas admirara a garota, não fazia ideia de que queria mesmo conhecê-la, a vontade estava soterrada debaixo de toda sua fascinação. Agora o motivo que teriam para conversar era o terror que ele a proporcionara fotografando-a secretamente como um perseguidor, um obcecado. Só o que se passava por sua cabeça naquele momento era a necessidade de esclarecer a situação para a menina. Mal sabia seu nome. "O que eu quero com ela?"

   A menina surgiu no cenário, como se dançasse em direção ao estúdio e, de repente, o mau cheiro do lugar pareceu esvair-se. Phoebe flutuava graciosamente pela praça como uma flor-de-lótus embelezando um pântano. Ned, sem pensar duas vezes, correu até ela, entrando em seu campo de visão. A garota teve um sobressalto e se recompôs com uma lufada de desapontamento.

— O que faz aqui? Para de me seguir! — atirou ela, na defensiva.
— Vim lhe pedir desculpas. Por favor, me ouve.
— Eu tenho que trabalhar.
— Só um minuto. — insistiu ele. A garota esperou quieta. — Só queria te explicar. Olha, eu não te persegui, nem quero te fazer mal. — ela cruzou os braços, parecendo impaciente. Ainda assim, ele não pôde deixar de reparar em sua delicada beleza. Ned se recompôs e a pediu com um gesto que se sentasse junto com ele. — Bom, eu te vi um dia dançando na escola de balé e fiquei encantado. Então eu voltei lá e, não sei porquê, comecei a te fotografar. Eu só consegui olhar pra você. Posso ter agido que nem maluco, mas eu nunca fiquei tão fascinado com alguém assim.
— Eu não sou bonita assim. Eu sou normal. — a voz suave da menina hoje estava mais baixa e mansa.
— Eu não teria agido que nem um doido se você não fosse.
— Como eu vou saber se você tá falando a verdade? — rebateu, cuidadosa.
— Me dá um voto de confiança. Eu te devolvo todas as fotos, pode levar. Só não me impede de olhar pra você. — implorou ele, com os olhos suplicantes que ele nem sabia que possuía.
— Essa admiração toda ainda é assustadora, sabe?
— Desculpe. — Ned baixou o rosto — Tô me sentindo um pré-adolescente que nunca viu uma garota antes.
— O que você quer de mim?
— Não sei. Na boa, eu não sei se eu tô a fim de você ou sei lá. Só me perdoa, tá? Eu não vou te incomodar.
— Eu vou pensar no seu caso. Depois me explica o que eu tenho que te... fascinou tanto assim.
— Você deve mesmo ser especial, eu nunca falo tanto assim. — revelou.
— Eu fui com a sua cara. Quer dizer, você não parece mal intencionado. Se não fosse tão esquisito eu até te acharia bonito também. — Phoebe levantou e despediu-se com um aceno rápido, deixando Ned com um sorriso besta enquanto ela escorregava para longe dele.



   Em passos vacilantes, Ollie marchava para a própria casa, com Tyler ao seu lado, chutando cada pedrinha que estivesse à sua frente. Os braços de Oliver pareciam espinhosos, com os poros tão arrepiados. Tyler se sentia ligeiramente constrangido com o silêncio entre eles, um sentimento que raramente enfrentava. Estranhou o humor de Oliver estar tão diferente, o garoto que sempre faz piadas toscas e comentários cabulosos hoje não demonstrara seu hiperativismo pitoresco e sua gargalhada escandalosa.

— Cê quer que eu te deixe sozinho, cara? — Tyler parou.
— Ahn? Por que? — perguntou Oliver, parando mais à frente.
— Cê tá mal, sei lá. Não quer conversar.
— Ah! Eu tô noiado com umas coisas aí. Não quer que eu deite no seu ombro pra gente chorar junto, né? — Oliver esperou enquanto Tyler somente uniu as sobrancelhas — Então para de viadagem que eu me resolvo sozinho. Anda! — ele tornou a andar e acenou com a cabeça para Tyler o acompanhar.
— Por que eu tô indo pra sua casa?
— Cê vai me ajudar a entrar.
— O q...
— Depois te explico. Me fala porque o Keith ficou daquele jeito quando te viu comendo aquela Bridget.
— Brigitte. — Tyler corrigiu.
— Uau! Cê lembrou o nome dessa. Deve ser especial.
— Tá aí o seu humor de volta.
— Fala, cara!
— Eu acho que o magrelo tava gostando dela. — ele engoliu em seco — Eu sei que ele tava. Desde o dia daquele incêndio escroto.
— Cê devia ter desenrolado pra ele, não comido a garota.
— Eu sei, eu vacilei. — Tyler começava a se irritar consigo mesmo — Primeiro, eu achei que ela fosse esquisita mesmo. As outras duas que tavam com a gente no incêndio eram muito melhores. Mesmo assim, o magrelo só olhava pra esquisita. Só que a mais gostosinha não quis saber de mim, e a outra era fácil demais, não tinha graça. Acabou que a Brigitte era maneira. Ela é meio que nem eu, sei lá.
— Aaah! Cê tá apaixonadaço, pô! — Oliver agora falava alto, com voz de escárnio.
— Não fode! — ele socou o ombro do amigo — Eu fodi tudo! Ele já me odiava por todas as merdas que eu fiz, agora nunca mais vai olhar na minha cara.
— Mas vocês dois tavam ligadaços nela.
— Não importa! Ele merecia mais que eu. Eu já tava fodido com ele, tinha que ter ficado na minha.
— Ele não te odeia, cara. Tipo, ele tem motivo, mas mesmo assim. E cê tem que esquecer essa Britanny.
— BRI-GI-TTE! — corrigiu-o Tyler, pausadamente.
— Tanto faz. Chegamos! — anunciou Oliver, parando diante do jardim delicado de sua casa de fachada caprichosamente tratada — Meus pais me trancaram do lado de fora ontem à noite. Eu cheguei muito bêbado, eles quiseram me foder desse jeito. Daí eu fui pra tua casa, mas não passei da porta também.
— Por que?
— A gente discutiu pra caralho. — explicava Oliver, enquanto começara a rodear a casa, tentando encontrar uma maneira de entrar — Eles souberam da morte do Christopher, que ele tava dopado na plateia, e colocaram a culpa em mim.
— Ahn? Que que você tinha a ver? — Tyler o seguia, prestando atenção à história, sem se importar com o arrombamento da casa.
— Ué! Ele era meu colega. Meus pais o conheciam. Eles acham que a gente tava se drogando, ou melhor, que eu deixei o moleque drogado naquele dia. — Oliver deu alguns passos para trás no jardim dos fundos para avistar a sacada do segundo andar.
— Mas que porra, Oliver! — Tyler tentava digerir todas as informações — Cê nunca falou que conhecia o moleque. Nem sabia que cê tava na escola no dia do incêndio.
— Eu não tava! Tinha matado aula. Era o primeiro dia, né!?
— Desde quando cê conhecia o Christopher?
— O Chris? Fazia uma semana só. Era meu vizinho. O moleque era maneiro, mas não se drogava, não. Na real, eu não sei porque ele tava dopado. Nunca aceitou bagulho nenhum que eu ofereci.
— Cara, cê tem noção de como isso é importante? Tem gente querendo me ver preso por causa desse incêndio e da morte desse cara. Por que não me falou antes?
— Depois do incêndio, meus pais me mandaram pro colégio interno, lembra? E eu não sabia dessa treta aí. — Oliver levantou uma das pernas na altura do peito — Faz pé-pé pra mim, vou escalar a sacada.
— Cê sabe se tinha alguém que quisesse matar o Christopher? — perguntou Tyler, apressado, enquanto agachava-se com as mãos em concha.
— Duvido muito. Ele era todo certinho. Não tinha problema com ninguém, até onde eu sei. — pôs o pé nas mãos de Tyler e impulsionou-se para cima, agarrando nas barras da sacada. Oliver escalou as barras e rolou no topo destas, caindo para dentro da varanda. Arremessou-se contra a porta, abrindo-a. Tyler, com os olhos semi-cerrados, olhava para cima, esperando o rapaz reaparecer. Com um ruído metálico de fechadura, Oliver surgiu na porta à frente de Tyler e o convidou a entrar com um aceno.



   O crepúsculo fazia o clima parecer ainda mais frio. Joe vestira uma touca surrada e viu a fumaça gelada sair de sua boca sempre que expirava. Caminhava por um gramado molhado pelo orvalho num parque extenso, voltando de seu novo trabalho na cafeteria onde há alguns dias perdera o horário do enterro de Christopher. Carregava uma garrafa vazia de cerveja nas mãos. Ouviu o som das vozes uníssonas de um coral, e voltou seu olhar para o anfiteatro pelo qual passava. O rapaz levantou o rosto, para o palco, havia um grupo de pessoas juntas diante de um regente. Relanceou pela plateia, não havia ninguém ali. Joe parou por um momento e reconheceu uma integrante daquele coral, seus cabelos pareciam chamas alaranjadas em meio aos outros cantando a plenos pulmões. Paige, ao centro do grupo, esperava quieta até que o regente ordenou que todos cessassem, e então sua voz surgiu crescente e solitária para um agudo final. Joe abrira um sorriso ao testemunhar aquilo, andou até a plateia e sentou-se bem em frente ao grupo. Ao que o regente agradeceu, parabenizou o grupo e anunciou o fim do ensaio, Paige notara a presença de um espectador. Joe sorriu largamente para ela, que retribuiu surpresa e confusa. Desceu do palco e foi de encontro com o rapaz, que batia palmas enquanto ela aproximava-se.

— Há quanto tempo você tá aí? — indagou Paige, um tanto tímida. Joe respondeu imitando o agudo da menina em um falsete totalmente desafinado, até explodir em um riso com ela.
— Não sabia que você cantava, e tão bem. — revelou Joe.
— Ah, não é nada demais.
— Então é isso que você faz? Essa é você? Uma cantora.
— Por que tá falando assim? Eu sou tão misteriosa assim?
— Você é... difícil de alcançar. — ele escolheu com cuidado suas palavras.
— Como se você fosse fácil. Quem é você, aliás? Eu não sei nada de você.
— Você sabe meu nome, minha idade, minha nacionalidade, onde moro, onde estudo.
— Só isso. Mas o que você faz? O que você gosta?
— Bem, eu gosto de uma moça ruiva que canta num coral. — Joe umedeceu os lábios. Paige demorou a responder. Virou-se e subiu no palco já deserto para pegar seus pertences largados ali. Joe a seguiu. A menina virou e viu Joe em pé diante dela, ao redor deles somente as árvores revoltas e um céu escurecido com um azul acinzentado. O rapaz andou até ela, pôs as mãos entre seus cachos e seu rosto salpicado de sardas e ela sentiu o frio de sua face desaparecer quando ele encostara os lábios nos dela. — Viu como cê é difícil?!



   O sol nascera novamente, escondido atrás de densas nuvens, faziam poucas horas. Keith já havia faltado a aulas demais na escola, e aquele era o primeiro dia que comparecia a uma atividade extra-curricular. Resolvera aparecer ainda na esperança de não encontrar com Tyler ou Brigitte. Ele entrava pela porta desgastada de uma sala no terceiro andar, o mais inóspito de toda a escola, para uma aula de artes. Sentou-se numa carteira mais ao fundo e baixou a cabeça, até que ouviu um clique próximo a ele. April retirou a câmera da frente do rosto enquanto a fotografia rolava para fora dela.

— Você de novo? — perguntou Keith, levantando o rosto — Por que cê tá me fotografando?
— Porque é a segunda vez que eu te encontro por acaso. — April sentou-se ao lado de Keith, que baixou novamente a cabeça entre os braços — Você não é um dos meninos que estavam no incêndio do auditório?
— Sou. — contou, hesitante — Não quero falar disso.
— Você conhece o Joe? Ele tava lá também.
— Sim. É seu amigo?
— Mais ou menos. Olha, ele tá no meu caderno. — ela abriu sua bolsa lateral e puxou um livro pesado de dentro. Encontrou a página com a fotografia de Joe colada e virou para que o menino visse.
— O que tá escrito embaixo? — perguntou ele, quando ela passou a página, antes que ele pudesse ler.
— Coisa minha. — ela virava mais páginas, meio envergonhada, então parou em outra — Olha ele aqui de novo, com essa menina.
— É a Paige! — reconheceu apontando para a foto — Ela tava lá no incêndio também.
— Eles... se gostam, né? — perguntou, tentando parecer trivial.
— Acho que sim. — respondeu Keith, que por mais lerdo que fosse, conseguiu notar o desapontamento de April — Cê tá a fim dele?
— Não! — mentiu — Por que?
— Sei lá, pareceu. Cê tem fotos dele no seu caderno e tudo mais.
— Tenho foto de um monte de gente no meu caderno. Aliás, eu posso colar essa foto que fiz de você agora? — ela exibiu a polaróide meio borrada que acabara de produzir.
— Hm, tá.
— Que bom. Até porque eu já tinha colado essa outra. — April mostrou a página de seu caderno onde havia colado uma fotografia de Keith deitado num gramado com folhas de árvore no cabelo.
— Você me fotografou nesse dia? — surpreendeu-se ele.
— Desculpe, mas você tava com folhas no cabelo.
— Tudo bem. Mas podia ter avisado.
— Tô avisando agora.
— Tá. — ele solto um pequeno riso — Legal esse seu caderno. Posso ver, por inteiro?
— Eu não te conheço ainda.
— Eu sou Keith Clyford Frost! — apresentou-se, estendendo a mão para ela.
— E eu, April Ambrose Pride! — ela apertou a mão dele e sacudiu exageradamente — Quem sabe, outro dia.



   O pó formara uma nuvem dispersa quando Brigitte espanou com as mãos o banco mais alto da arquibancada da quadra aberta da escola. Toda a poeira da obra de reconstrução do auditório espalhava-se pelo campo. Brigitte se sentara ali nas arquibancadas desertas, coladas com a parede de trás do auditório, para observar a reforma enquanto aspirava, discretamente, um tanto de cocaína que escondia em um pote de pó de base para maquiagem.
   Ela esfregou o nariz e guardou o pote na bolsa, esboçou uma careta de asco ao voltar o olhar para cima e contemplar a imensa parede empretecida e deteriorada pelo fogo. Então levantou-se, esticou o braço e o corpo atrás da mureta da arquibancada, tentando encostar na parede, sem sucesso, imaginando se era possível alguém atear fogo ao lugar, ali do alto onde ela se encontrava, sem que ninguém notasse. Ela bufou ao concluir que poderiam incendiar o prédio de qualquer lado, por fora ou por dentro e que ela não iria desvendar mistério algum assim. Mas Brigitte estava apenas imaginando.

   Baixou o rosto e sentiu uma terrível vertigem quando viu a profundidade do vão entre as bancadas e a extensa parede que ela encarava. A menina continuou encarando a fenda escura, até que notou um único buraco na parede, bem rente ao chão. Seu instinto a impeliu a descer rapidamente os degraus dali, andar sorrateiramente escondendo-se dos pedreiros até o vão e esgueirar-se entre as paredes para chegar até o buraco. Brigitte agachou-se e examinou a pequena abertura, apostando que não conseguiria passar por ali e que não fora o fogo que carava aquela brecha. Olhou através da cavação e encontrou o que devia ter sido um porão do teatro, cheio de caixas desfazendo-se em cinzas. Ao apoiar as mãos no chão para examinar o porão mais detalhadamente, sentiu algo fisgar uma de suas mãos. Imaginando que fosse uma pedra, surpreendeu-se ao ver algo reluzindo quando retirou a mão de cima. Um pequeno pedaço quebrado de um pingente, que ela mal conseguira distinguir a figura que tinha, nem se era um adereço feminino ou masculino.

   Brigitte sentiu-se frustada, mas sabia que aquilo poderia ser uma pista importante para desvendar quem foi que quase a matou queimada ali. Ela levantou-se, enérgica, e virou para sair dali. Um sobressalto lhe ocorreu quando duas pessoas entraram esquivas e risonhas no vão escuro. Era um casal, Brigitte aliviou-se ao reconhecer Heather segurando a mão de um rapaz qualquer.

— Brigitte? — chamou Heather, com os olhos arregalados e um sorriso nervoso — Que que cê tá fazendo enfiada aqui sozinha?
— Nada tão divertido quanto o que você veio fazer — disparou ela, começando a andar na direção deles —, mas que você vai gostar também. A gente conversa depois, tá? — Brigitte passou entre o casal e desapareceu ao fim da fenda. Heather deu de ombros e lançou-se para o rapaz, que a beijou apressadamente. Ela o segurou, impedindo que continuasse, quando ele começou a tirar a roupa dela.
— Pera aí! — ordenou Heather, com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso sedutor — Primeiro, me dá o que me prometeu.







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