16 dezembro 2014

Youth on Papers - Capítulo 9


Capítulo 9 - Trampolins





   No canto mais isolado do pátio da Forest High School, empoleirados em bancos e mesas quebrados, estavam reunidos, a pedido de uma deles, Brigitte, os sobreviventes de um incêndio que houvera ali não fazia muito tempo. A garota, carregando uma expressão cansada e triste, tinha as pernas cruzadas e mantinha-se calada enquanto esperavam Joe andar até eles trazendo um relutante Keith. Ao aproximarem-se, Joe cumprimentou todos rapidamente, e Keith simplesmente resmungou alguma coisa e sentou-se mais distante, num banco quebrado ao lado de uma planta espaçosa, sem olhar diretamente para ninguém, especialmente para seu melhor amigo e para a garota a qual partira seu coração dias atrás. Um silêncio constrangedor pairou por ali durante alguns minutos.

   Alguns estudantes passavam por perto dali, encarando-os, apontando e cochichando. Só então aqueles jovens puderam parar para refletir e se dar conta de que realmente deviam ser assunto recorrente nos cochichos dos alunos daquela escola e talvez do resto da cidade. Mantiveram-se focados em problemas maiores, nas conversas policiais que mencionavam seus nomes e não nas fofocas e indelicadezas dos colegas de classe. Haviam somente testemunhado o apoio que toda a escola demonstrou para Christopher e sua família. Era algo que fazia-os se perguntar se as pessoas dali também os reconheciam como vítimas ou vilões, que poderiam ter culpa na morte do rapaz, pois nenhum apoio significante fora dado também aos sobreviventes por parte dos alunos. Porém essa questão, se tivesse que incomodá-los, teria que ser em último plano. Afinal, tinham que cuidar das próprias vidas e entender todo o acontecido por si sós, uma vez que não enxergavam mãos solidárias em nenhum horizonte.

— E então? — iniciou Heather, quebrando o gelo.

— Bem — começou Brigitte, timidamente, tentando se recompor —, eu queria falar sobre o incêndio. Ontem eu fui até a reconstrução do teatro e descobri uma abertura na parede de trás, que dava num porão. Essa parede foi a menos afetada pelo fogo, ela é imensa e só tem esse buraco, rente ao chão. Pensei que alguém poderia entrado ou saído por ali. Talvez quem colocou fogo no lugar. Depois que eu encontrei isso na passagem — ela abriu uma das mãos, deixando à vista um pingente destruído —, fiquei convencida de que alguém passou por ali, incendiário ou não, alguém perdeu isso.
— O que é isso? — perguntou Joe, curioso.
— Parece um pingente. — apostou Paige, examinando.
— Parece lixo. — desdenhou Tyler.
— Acho mesmo que é um pingente, mas tá muito amassado e quebrado, não dá pra saber o que é. — contou Brigitte.
— Mas como vamos saber se isso já não tava lá há anos? — questionou Joe.
— Tava dentro de onde a parede foi cavada. — constatou ela.
— A gente pode perguntar a algum funcionário se aquele buraco já existia. — sugeriu Paige.
— A gente não pode ficar perguntando muito, já suspeitam da gente. — afirmou Tyler, num tom irritado.
— Ah! Não precisam mais se preocupar com isso. — declarou Heather, com um sorriso contido.
— Como assim? — disseram todos, uns em coro, outros com a expressão de dúvida.
— Eu dei um jeito no Detetive Harper, ele não vai mais incomodar a gente. — explicou, dando de ombros.
— Cê matou o cara ou o quê? — brincou Tyler.
— Não matei ninguém. Tivemos uma boa conversa, rolou uma chantagem e é só. Não perguntem. — relatou Heather. Os demais tomaram um tempo para digerir a informação, encarando a garota.
— Tá bom! — Paige reiniciou a discussão — Mas e se outra pessoa insistir na gente?
— Ele era o único que tava tentando foder a gente. — garantiu Tyler.
— Pra gente ficar tranquilo de uma vez, vamos descobrir quem fez essa merda toda, e provar. — sugeriu Brigitte — Se a gente não se virar, vamos se ferrar uma hora ou outra.
— Não tem como a gente encontrar o dono disso. — disse Joe, apontando para o pingente toscamente retorcido. — O jeito é descobrir por que motivo alguém queria queimar o auditório ou só matar a gente ou só o Christopher.
— Ah, é! — Tyler gritou — Vamos pesquisar a vida desse moleque. O meu colega me contou que era amigo dele. Me disse que ele era tranquilo, certinho, não tinha porquê estar drogado lá, nem tinha problema com ninguém pra ter sido assassinado. — ele parou tentando lembrar-se de mais informações, enquanto todos o fitavam curiosos — O Ollie, meu amigo, matou aula e não teve com o Christopher no dia que ele morreu. A gente explora a vida desse moleque e vê quem tem ligação com esse pingente.
— O moleque não se drogava e tava lá, dopado... — refletia Joe.
— Ou, quem sabe, já estava morto. — interrompeu Heather.
— ...e nós — continuou Joe — estávamos lá por acaso, ninguém podia estar atrás da gente. O alvo só podia ser o Christopher, como ele não tinha treta com ninguém?
— E se não tinha ninguém querendo matar ninguém? — arriscou Paige, erguendo os ombros — E se o fogo veio todo do nosso pequeno e ridículo acidente?
— Então a morte do garoto seria nossa culpa afinal? — perguntou Brigitte, temerosa.
— Nossa não, do Tyler, ele que fez o fogo. — corrigiu Keith, levantando-se num pulo e partindo. Tyler permaneceu fincado de pé, fitando, atônito, a silhueta do amigo se afastar. Apesar da balbúrdia ensurdecedora do pátio, um silêncio novamente se instaurou entre os cinco jovens ali restantes e somente dois deles entendera a dramática saída do sexto.




   O branco ofuscante dos azulejos que cobriam todo o banheiro da escola incomodava a visão de Paige e Heather. Diante do grande espelho meio embaçado sobre o lavabo, elas retocavam a maquiagem e arrumavam os cabelos, de conversa fiada. Paige sentia-se mais cansada e indisposta na presença de Heather, sempre cheia de energia e vontade, sempre procrastinando o cumprimento de suas tarefas, enquanto que Paige estava sempre atarefada por mais que se livrasse de um ou outro dever. Heather não possuía muitas atividades além das escolares como Paige. Ambas gostam de ocupar-se, porém Paige com algo produtivo e Heather com algo divertido. Tendo andado juntas desde que podem lembrar-se, uma sempre tentara arrastar a outra para suas atividades favoritas, sem ainda compreender como podiam ser tão diferentes e entender-se bem. Paige tentava despreocupadamente domar seus cachos quando sua amiga agitou as mãos no ar ao lembrar de algo, assustando-a.

— Eu tenho que te contar uma coisa. — anunciou Heather, entusiasmada.

— Tô vendo. — disse Paige.
— Sabe quando eu disse pra não se preocupar com o Dennis? — começou ela, ansiosa, e Paige assentiu — A gente saiu, se divertiu, eu fui pra casa dele e transamos.
— Cê transou com aquele babaca?
— No fundo, ele não era tão babaca, sabe? Mas depois ele achou que eu fiz isso pra manipular o processo sobre a gente e ficou puto.
— Viu só? Mas qual é a da chantagem que você mencionou antes?
— Bem, eu sou menor de idade, né!? Falei que se ele nos acusasse da merda toda, eu acusaria ele de estupro induzido.
— Uau! Parabéns! Você livrou a gente de uma merda bem grande. Mas será que pode aparecer outro detetive pra ferrar a gente?
— Acho que não, o Dennis tem que continuar no caso, só que a favor da gente.

— Temos que começar a se virar mesmo. Legal cê ter conseguido isso, agora a gente pode...
— Calma. — interrompeu — Isso não é tudo. Olha o que eu acabei de conseguir. — Heather abriu sua bolsa com um clique metálico que ecoou no banheiro e pôs à vista de Paige, que espiou o interior.
— Um CD? — ela voltou o olhar para a amiga, tentando compreender do que se tratava o disco — Que é que tem esse CD?
— As gravações... Das câmeras de segurança da escola, do auditório do dia do incêndio.
— Pera aí! Como assim? — os olhos de Paige ficaram gigantes — A polícia já não tinha que ter conseguido isso muito antes?
— Tinham sumido misteriosamente.
— E como reapareceram?
— O carinha que me conseguiu é quem vigia as câmeras. Ele foi pago pra sumir com as gravações e pra calar a boca, mas óbvio que ele fez um backup.
— Pago por quem?
— Outro mistério, que talvez seja desvendado nesse DVD.
— Como você descobriu isso?
— Ué, procurei o cara das câmeras e ele não conseguiu ficar quieto perto de tudo isso. — ela fez uma pose como a de uma modelo numa passarela — Era um tiro certo.
— Você deu pra ele?

   Heather deu de ombros.


— Fala sério, Hess! 
— Paige cobriu a boca com as mãos, risonha — Ele é gato?
— Ah! — ela bufou — Tanto faz, foi só pra conseguir os vídeos.
— Isso é incrível! Cê tá super resolvendo tudo, e sozinha.
— Na verdade, com ajuda da minha vagina, né?!
— É. — riu — Você meio que se prostituiu, né? — arriscou Paige, em um tom brincalhão.
— Não. — Heather deu um pequeno empurrão no ombro da amiga — Tá, talvez. Mas, na verdade, eu só fiz uma coisa que eu gosto e tirei um proveito disso, então... — ela voltou a mexer nos seus cabelos de aplique, deixando-os mais volumosos — Tipo, primeiro eu só dei pro Dennis porque eu quis mesmo, sem segundas intenções, mas depois ele foi escroto de novo e eu não podia deixar ele me ferrar. Então, eu dei também pro cara das câmeras porque eu quis, mas nesse caso com segundas intenções. Mas foi por uma boa causa.






   Em algum lugar da cidade, em um terreno baldio cheio de poças de lama, Keith e Joe estavam sentados em um carro abandonado, sem pneus, apoiado em blocos de concreto. O cheiro de ferrugem os dava a sensação de estar enferrujando suas vias aéreas. Apesar das violentas tossidas de Keith, eles continuavam lá, sem fazer nada de importante. Somente analisando aquele velho carro depenado.

— Por que a gente tá aqui mesmo? — perguntou Keith, com uma voz fina, que desaparecia entre os esforços de seu pulmão.

— Como eu ia passar por esse carro abandonado e deixar pra lá? — esclareceu Joe.
— A gente não devia invadir a casa dos outros assim.
— Quem vai morar nesse monte de lata, cara?
— Ratos.
— Deixa de ser fresco. — Joe se pôs a raspar a tinta que soltara da lataria do carro, depois de cansar de fingir que dirigia com um volante que já não estava ali.
— Joe — começou Keith, recuperando sua voz normal —, cê conhece uma tal de April, né?
— A piradinha das polaróides, sim! Cê conhece?
— Conheci esses dias. Depois encontrei na escola.
— Idem.
— Por que chamou de piradinha?
— Ela é engraçada.
— Acho que ela gosta de você.
— É? — Joe virou-se para o volante inexistente outra vez — Também achei. Eu li no caderno dela que sonhava comigo, que a gente se beijava e tal. Aí eu dei um beijo nela.
— Sério? Por isso ela não me deixou ver o caderno.
— Ela é meio misteriosa. Do tipo que você gosta.
— Nem fala. — Keith cobriu o rosto com as mãos, reprimindo os pensamentos sobre Brigitte — O que cê vai fazer? Se ela for mesmo a fim de você?
— Acho que nada. Pô, eu tô me amarrando na Paige. Finalmente arranquei um beijo dela.
— Ah é? Cê tá beijando todo o mundo!
— Fala sério. — riu — E você? Não tinha beijado a Brigitte? — Joe esperou uma resposta, mas Keith virou o rosto para onde deveria ter uma porta no carro e não disse palavra alguma — Ok.
— Ela me beija, eu me declaro que nem um babaca, ela fode a minha cabeça e depois dá pro meu melhor amigo. — ele sentiu sua garganta arder — Logo depois eu conheci a April, que é tão esquisita quanto a Brigitte, mas de um jeito bom.
— Por isso que cê tava bolado hoje lá no colégio?
— Eu não queria olhar pra cara do Tyler e nem da Brigitte.
— Cê tá a fim dela?
— Nem fodendo. Passou tudo.
— Tô falando da piradinha. — corrigiu Joe, mas antes que pudesse obter uma resposta de Keith, eles ouviram o clique rápido do obturador de uma câmera seguido de uma voz tímida.
— Oi! — cumprimentou April, fitando os rapazes assustados, enquanto eles saíam do carro.
— Como você faz isso? — surpreendeu-se Joe — Por que sempre chega assim?
— A foto ficou ótima. — contou ela, ignorando as perguntas de Joe e abanando a fotografia recém-cuspida pela sua máquina fotográfica.
— Oi, April. — disse Keith — Como achou a gente aqui?
— Eu não tava procurando. Desculpa se eu interrompi vocês, eu só queria fotografar.
— Tá tranquilo! — Keith aproximou-se dela para olhar a foto — Vai colar no seu caderno?
— Eu sempre colo.
— E vai escrever o quê na legenda?
— Sei lá, Novos... amigos ou algo do tipo.
— Somos seus novos amigos? — Keith achou graça.
— Não são?
— Olha, eu sou — interrompeu Joe, colocando as mãos nos ombros dos dois jovens —, mas o keith pode até ser mais do que isso, se quiser. — abriu um sorriso satisfeito quando notou os leves trejeitos acanhados que ambos adotaram ao ouvi-lo — Bem, eu tenho que voltar pro trabalho agora, vocês podem passear mais por aí. A gente se vê. — Ele, então, partiu e deixou o casal entre as poças de lama assistindo os seus passos largados até que sumisse de vista. Keith olhou para April ao seu lado e achou que fosse vê-la ainda olhando para a direção que Joe tomara, porém surpreendeu-se ao encontrar o olhar da menina, mais baixa que ele e tão delgada quanto, que já tinha o rosto voltado para ele. O rapaz tentou involuntariamente reprimir um sorriso, que tomou um aspecto estranhíssimo. April, sem nenhum aviso, segurou o braço dele, começou a cutucá-lo e parecia estar contando suas sardas. Keith, tentando não se surpreender mais com essas atitudes tão espontaneamente incomuns, pensou em dizer que era inútil querer contar todas as suas sardas, pois haviam muitas, mas somente abaixou seu rosto e deixou um beijo na testa da menina. O gesto gentil a fez desistir da contagem de sardas e ela simplesmente abraçou aquele braço magricela. Os dois ficaram ali por um momento, estranhamente abraçados, olhando para a rua despropositadamente.




   Os galhos pairavam serenos cobrindo o céu pálido com suas folhas oscilantes sobre o corpo de Ned, que boiava solitário nas águas turvas do rio que cortava um pedaço de floresta do seu bairro. Ele olhava para cima, escutando o estranho silêncio aquático, com os ouvidos submersos, batendo levemente seus membros para manter-se flutuante. O cenário pacífico e o som da natureza crua acolhiam o rapaz, que era tão calmo quanto aquele ambiente. Suas recentes ansiedades o desconcertavam, por serem sentimentos que ele desconhecia e com os quais não aprendera a lidar. Por isso se retirara para o canto mais aconchegante e brando que conhecia para recuperar a calmaria e sentir a água sugar seus pensamentos, deixando-o vazio.

   Ned parou de boiar e mergulhou, dobrando os joelhos. Voltou devagar à superfície, seus cabelos molhados e esticados cobriram-lhe a face até a ponta do nariz. Ele soltou o ar dos pulmões e voltou a respirar. Sua franja parecia uma cachoeira, escorrendo a água que havia retido, ele tirou-a do rosto com as mãos e escutou uma agitação nova na superfície do rio. Virou-se para conferir e seu coração deu um salto. Por demorados segundos, ele imaginou que fosse sua própria imaginação e que sua terapia ali não surtira nenhum efeito em acalmar seus pensamentos. Somente quando a voz ressentida e reconfortante da figura acanhada da bela menina fez dançar um Olá entre eles, que Ned pôde se dar conta de que não tivera miragem alguma.

— Phoebe? — perguntou ele, mais para conferir se ela estava ali realmente do que para cumprimentar—  C-Como...?

— Eu te segui. — esclareceu ela, soltando as sapatilhas dos pés pequeninos para molhá-los no rio — Assim ficamos quites.
— Cê tava aqui o tempo todo?
— Sim. Eu fiquei te olhando, que nem você fez comigo nas minhas aulas de balé.
— Mas eu tô pelado! — lembrou, cobrindo sua virilha com as mãos, ainda que estivesse debaixo da água turva.
— Não se preocupa, eu não vi muita coisa.
— Como assim "não viu muita coisa"? — ele soou ofendido.
— Relaxa! Quis dizer que só vi sua bunda. — riu, sentando-se numa pedra à margem do rio, com os pés na água.
— Isso é esquisito. Era um momento particular e tal, mas não posso reclamar. Desculpa de novo por ter te observado e fotografado, etc.
— Já disse, estamos quites.
— Quites? — ele analisou o sentido da palavra por um instante — Tirou fotos de mim? — perguntou com urgência.
— Não. Relaxa.
— Então você já me perdoou? — ele tremia com o corpo encolhido assistindo-a consentir com a cabeça — Não quer entrar?
— A água tá muito fria?
— Não, eu tô tremendo mas é por causa do vento.
— Então tá! — Phoebe virou-se de costas para o rapaz e, com demasiada leveza, despiu-se de seu vestido, enquanto Ned a assistia como se visse uma borboleta libertando-se de um casulo. O vestido caiu às folhas secas do chão macio, revelando a roupa de baixo de cós alto e as costas nuas da menina. Ela pôs as mãos sobre seus pequenos seios nus e virou-se de volta para o jovem tremendo no meio do rio, que tentava não ficar boquiaberto. Ela caminhou para dentro da água, que rapidamente lhe chegara até a cintura. Com os cotovelos colados aos lados do corpo e as mãos ainda cobrindo os seios, ela parou em frente a Ned e agachou-se num mergulho. Foi uma atitude simples, instigante e surpreendente para o rapaz, que teve de lutar para conter uma ereção ao vê-la dar um mergulho em um gesto tão sugestivo. Ainda que a água daquele rio fosse escura, ele pôde enxergar, com um certo desapontamento, quando Phoebe, ao invés de realmente fazer o que deixou parecer que faria, simplesmente o contornou em um nado submerso, surgindo atrás dele. Nesses pequenos instantes, Ned, que nutria uma admiração por ela, fora deixado indagando a si mesmo se aquele gesto tão sensual era propositalmente provocativo ou se Phoebe era tão ingênua, como sua aparência sugeria, que tudo aquilo seria natural para ela. Não conseguiu convencer-se de uma resposta, mas preferia acreditar nas duas ao mesmo tempo. Mais confuso ainda, ficou, quando, ao ressurgir atrás dele, Phoebe o abraçou pelas costas, seus seios espremidos no corpo do rapaz. Ele, então, liberou as mãos que escondiam seus genitais e segurou as dela em sua barriga. Devagar, ele girou o corpo, parando em frente à menina, segurando suas mãos. Não pôde evitar seu olhar, que passeou pelo busto magro dela, mas respeitosamente conteve a vontade de tocá-lo. Ela aproximou mais ainda seu corpo ao dele, e ele sentiu que as pernas dela encostavam em suas partes íntimas, fazendo-o receoso de alarmá-la, como se fosse ele quem estivesse sendo atrevido demais com alguém tão puro e inocente.
   Phoebe beijou o peito de Ned, que era onde seus lábios alcançavam. Então, por sua vez, ele dobrou o tronco, levantando o queixo dela com uma mão, e fez o que queria fazer desde que a avistara rodopiando pelas janelas da escola de balé. O beijo pareceu incomodamente ruidoso, naquele lugar inabitado e silencioso, mas eles não se importaram. Ned nunca ficara tão satisfeito e entusiasmado de fazer algo em toda sua vida. Beijar aquela garota — a qual ele vinha admirando em segredo, que ele nem sabia que desejava tanto e tivera medo de assustar —, naquele cenário e naquelas circunstâncias, era como se estivesse ganhando o que nunca imaginou que pudesse ganhar.





   O chão de concreto da calçada era um assento desconfortável no qual Tyler havia se sentado e brincava com um cigarro apagado nas mãos, lutando contra a vontade de consumi-lo. Estava em frente a sua pequena e mal cuidada casa, pois decidira sair de lá, no entanto não sabia aonde ir. Com um bocejo, colocou o cigarro atrás de uma orelha e passou a mão em seu cabelo oleoso, pondo de volta para trás o seu topete. Um tanto sonolento, apoiou os braços nos joelhos e deitou a cabeça ali. Dentro de alguns minutos, sentiu alguém se acomodar ao seu lado na calçada. Levantou rapidamente o rosto, desconfiado, para conferir sua nova companhia.

— Tsc! Não chega assim de mansinho, pô! — reclamou ele.
— Foi mal. — desculpou-se Brigitte — Por que tá aqui fora?
— Tomando um ar livre. — revelou, sem paciência.
— Eu também. Aí resolvi vir aqui.
— Eu não vou te comer hoje, tá?
— Eu não vim dar pra você. — retrucou.
— Veio pra quê?
— Só vim ficar com você.
— Tsc! Até isso parece errado.
— E desde quando você liga pro que é certo ou errado?
— Desde que isso me sujou com o Magrelo.
— Que que a gente vai fazer, hein?
— Eu não devia nem tá falando contigo.
— Isso não vai mudar o que a gente fez.
— Por que cê tá preocupada com o Magrelo? — Tyler vestiu o seu olhar vulpino tão costumeiro — Você sabia que ele te queria, mas foi trepar comigo.
— Eu não tô apaixonada por você, Tyler. Eu gosto do Keith. Mas eu fiquei com você porque eu sei que não mereço ele.
— Cara, que que cê tem na cabeça? Por que tuas ideias são tão fodidas? Ele gostava de você. Era só ir em frente e se esforçar pra não fazer merda.
— Ah, é? Me diz como você se sai bem nisso? — perguntou, sarcástica.
— Eu não me esforço. Eu sei que faço um monte de merda, mas não tava tentando parar. Agora, se você gosta do Keith, era só tentar.
— Agora já era, tá? Eu fiquei com você, não foi?
— Mas não gosta de mim. Só ficou comigo porque achou que a gente se merecia. Isso é muito fodido. Mas eu até que tô gostando de você, sabia? — ele segurou o rosto dela pelo queixo, com força — Eu não fui com a tua cara quando te conheci e você jurou que não ia dar pra mim. Mas você meio que me entende, né? Acha que eu sou um fodido na vida, um torto, que só faço merda, mas me entende... E me aceita. — encarou ela em silêncio por um momento como se continuasse com o seu discurso na privacidade de sua mente. Depois soltou o rosto dela com um leve empurrão. — Olha pra gente agora. Você ainda vai gostar de mim, Brigitte.
— Você é praticamente tudo o que eu tenho agora. Já é alguma coisa. — Brigitte inclinou a cabeça para a frente, avançando para beijá-lo, porém Tyler virou o rosto, impedindo-a.
— Não vou fazer nada com você, Brigitte. — disse, sereno como nunca antes — Eu tenho que me redimir com o Magrelo. Além do mais, eu não sou de ficar de beijinho na calçada.
— Eu não sabia que você podia ser assim. Que se importava tanto com ele.
— Do mesmo jeito que você acha que ele é bom demais pra você, ele também é pra mim. Eu perdi meu irmão caçula. Não tenho mais de quem cuidar. Quer dizer, eu não sabia cuidar. Ainda não sei como consertar toda babaquice que fiz pra ele achando que tava trazendo alguma felicidade.
— Suas intenções foram boas o tempo todo, né? — arriscou Brigitte, erguendo seu pequeno estojo de pó compacto para ele.
— Que é isso?
— Acho que a gente tá precisando. — ao invés de explicá-lo do que se tratava aquele estojo, ela o abriu, fechou uma de suas narinas e inalou um pouco do cocaína dali, sem nem separar uma carreira. A garota passou o estojo para Tyler, enquanto esfregava o nariz e gemia como se tivesse acabado de aliviar uma dor física.
— Tá melhor? — perguntou Tyler, com um pouco de ironia na voz, no que ela assentiu. Então ele sujou um dedo no pó e levou-o à boca para provar, fazendo uma careta de aprovação. Em seguida, repetiu os movimentos de Brigitte, inalando ainda mais do que ela. Fazia ruídos nojentos como se estivesse gripado. Expirou aliviado, deixando o corpo cair para trás, deitando-se na calçada. Brigitte deitou ao seu lado, com a cabeça em seu peito. O casal respirava fortemente, olhando para o céu, enquanto pedaços de gravetos e pequenas pedrinhas grudavam nos seus cabelos e agarravam em suas vestes, passando tão despercebidos por eles quanto seus problemas e preocupações, que a droga varria de suas mentes.






   A ansiedade tomava conta das meninas, que carregavam as gravações promissoramente elucidantes do fatídico incêndio, e subiam as escadas do prédio onde moravam apressadas, sem paciência de esperar que o elevador chegasse ao térreo. Já haviam pensado que seria melhor convidar os outros quatro jovens companheiros daquela noite trágica para assistirem aos vídeos juntos, mas não podiam mais conter a curiosidade. Heather entrou em sua casa como uma bala, seguida de Paige, igualmente excitada com a possibilidade de obter melhores pistas sobre o incêndio. Elas enfiaram o disco no leitor de DVD da sala e, em poucos segundos, o grande televisor acendeu exibindo a imagem preta e branca de resolução precária, com data e hora dispostas na tela, dos bastidores do auditório, completamente vazio, a não ser pelos materiais cenográficos amontoados por lá, que hoje não passavam de cinzas.
   As jovens continuaram a assistir apreensivas, até que algo novo surgiu na cena. A figura de uma pessoa, encapuzada e mascarada, vestindo roupas largas e escuras, cuja aparência lembrava a de um homem de baixa estatura, porém muito ágil, irrompeu pelo recinto, atravessando-o e sumindo novamente ao alcance da câmera, como se fosse em direção às cochias do palco. Passaram-se alguns instantes, enquanto Heather e Paige recuperavam-se do espanto incrivelmente livre de histeria de encontrar provas de que realmente havia mais alguém com eles naquele teatro. Ficaram separados apenas por uma parede, daquele que provavelmente incendiou de fato o lugar. Assassino ou não, incendiário ou não, criminoso ou não, havia um invasor mascarado, escondendo-se por ali.
   O estridente grito duplo invadiu a sala quando as meninas, agora histéricas, assustaram-se com a volta repentina da figura encapuzada à cena. O rosto mascarado do invasor reapareceu de frente para a câmera, bem próximo, e esfregou uma espécie de tinta com os dedos na lente, impedindo que capturasse mais imagens daquele lugar. Em seguida, outros vídeos foram exibidos, mais curtos; as imagens da câmera da faixada do auditório, que mostrava a entrada deserta, quando o quadro foi então invadido por uma mão esfregando tinta na lente. Depois, o mesmo aconteceu com as imagens do interior do salão onde existe a plateia e o palco, no qual as garotas puderam enxergar a si mesmas e a seus colegas, com um calafrio arrepiante, que experimentaram ao concluir que o invasor esteve se esgueirando pelos cabos do teto, passando tinta nas câmeras, dividindo o mesmo cômodo que eles.
   Elas congelaram quando os vídeos acabaram e permaneceram sentadas no carpete da sala, boquiabertas e caladas. Sabiam que aquilo era uma forte prova de sua inocência, ainda que não exibisse aquele invasor claramente incendiando o prédio. Contudo, haviam finalmente comprovado que existiu uma oitava pessoa com eles naquele dia, que prezou em não ser reconhecida, evitou que registrassem suas outras ações naquele auditório e que possivelmente havia entrado ali pelo buraco na parede do porão. Heather tentou parar de digerir o assunto e aquelas novas informações antes que tivesse dores de cabeça. Paige podia ver que o cerco começava a se fechar e que todo o propósito daquela noite poderia ser desvendado e compreendido algum dia, mas sentia que não estavam tão perto ainda.


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